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por
Vasco Graça Moura
Escritor
Este Verão tem sido muito agitado. Em que medida isso nos diz respeito, a nós, portugueses, é uma boa questão e a resposta surgiu há poucos dias.
O cumprimento da resolução 1701 da ONU implicaria o desarmamento do Hezbollah e a libertação dos soldados israelitas mantidos como reféns. Sem isso, a resolução não está a ser cumprida, mas sim violada, e não pode exigir-se a Israel que se abstenha de mais acções militares. O risco de reacendimento do conflito agrava-se de dia para dia. Mas sosseguemos. Neste mimoso rincão da Europa à beira-mar plantado, não temos quaisquer razões para nos preocuparmos.
No rescaldo das acções militares, houve entretanto jornalistas que descreveram a maneira como o Hezbollah fazia trucagens para desinformação tendenciosa na imprensa internacional: por exemplo, colocando sapatos de criança ou brinquedos entre ruínas. Isto não tem a mínima importância. Não nos afecta uma perninha da Barbie implantada nos escombros nem um ursinho de peluche esquartejado, como testemunho da manipulação.
Como já se previa, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia reuniram-se na passada sexta-feira. Discutiu-se o envio de uma força da ONU para o Líbano. Afinal, 15 mil capacetes-azuis, como queria a ONU, era de mais, e 150, como queria a França, era de menos. Chegou-se parvamente ao número de sete mil. E concluiu-se que os soldados iriam para lá jogar a bisca lambida nas horas de serviço e saltar ao eixo nas horas vagas. Assim, tudo continua pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis.
A ameaça nuclear iraniana persiste. As manobras da diplomacia do Irão são verdadeiros passes de feira. Não é crível que o Irão prossiga com as suas instalações nucleares para usos pacíficos, nem se vê que um horizonte de sanções económicas possa desviá-lo dos seus propósitos de aniquilação de Israel. E ninguém pode prever as consequências de um conflito nuclear no Médio Oriente. Mas isto, verdadeiramente, passa muito, muito longe de nós.
Surgem um pouco por toda a parte sinais do terrorismo em aviões e comboios. Em poucos dias, foram desmontadas algumas ameaças, na Grã-Bretanha, na Alemanha, na Irlanda. Se não o tivessem sido, haveria hoje mais uns milhares de vítimas de morte violenta. E todos os dias há novos sobressaltos a bordo dos aviões. Mas não há razão para inquietações de maior. Não aconteceu nestas paragens.
A imigração maciça de africanos desesperados traz consigo os terríveis problemas de uma gigantesca tragédia humana, de par com as dificuldades de limitar o seu acolhimento e de o enquadrar legalmente. Vários países do Sul da Europa andam à procura de uma solução. Mas não é coisa que nos afecte especialmente.
O nosso país debate-se actualmente com inúmeros problemas que poderiam parecer muito graves: desde os projectos absurdos do Governo quanto ao aeroporto da Ota às dificuldades da nomeação do procurador-geral da República por consenso entre os dois maiores partidos, passando pela ineficácia do combate aos incêndios e pelos prejuízos consequentes, pela crise da agricultura e das pescas, pela crise crónica do ensino, por soluções para a Segurança Social, pelo agravamento sem nome quer da despesa pública, quer dos impostos, pela subida da taxa de juro e pelo aumento brutal do custo de vida, pela co-incineração nas cimenteiras, pela rápida reacção do presidente da Câmara de Coimbra à obstinação governamental, etc., etc. Mas, vendo bem as coisas, nenhuma dessas questões é de molde a fazer-nos perder o sono. Nós, portugueses, dormimos bem.
Eduardo Cintra Torres falou no acatamento pela RTP1 das instruções do Governo no tocante aos incêndios e na minimização das notícias correspondentes, quer em tempo de duração, quer no alinhamento dos serviços noticiosos. A RTP1 reagiu à insinuação, mui ciosa da sua independência jornalística. E assim, enquanto não se procede à comparação com os dados resultantes dos telejornais dos anos anteriores, também a propósito dos incêndios não há razão para sobressaltos.
A RTP1 decerto virá a proclamar com legítimo orgulho que não foi por obediência ao Governo que consagrou, na quinta-feira passada, os 16 primeiros minutos do Telejornal das 20.00 às dimensões transcendentais do caso Mantorras. De facto, nem o próprio Governo se lembraria disso, por muitas veleidades de interferência que tenha. E afinal esses 16 minutos não podem mudar o mundo. Só podem dar uma ideia daquilo que a RTP1 entende por serviço público de televisão.
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