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por
João César das Neves
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário
Este é o momento de excelência da economia portuguesa. Exteriormente as coisas não parecem andar bem, mas realmente é agora que se revela a grandeza do nosso aparelho produtivo. Nas épocas de viragem, mais que nos períodos de crescimento, vem ao de cima o melhor das nossas capacidades.
O novo quadro internacional e a evolução dos custos internos são os problemas que angustiam muitos sectores. Mas a angústia é a única porta para o desenvolvimento. Cada empresário, aflito na sua circunstância, esforça--se por encontrar novos clientes, novos produtos, novas soluções. As famílias, apertadas pelas dificuldades, procuram outros empregos, compras mais acessíveis, melhores condições. A combinação desta miríade de decisões individuais, cada uma delas pessoal, arbitrária, contingente, discutível, traz a famosa transformação estrutural.
Deste modo, no meio da recessão ou paralisia, vive-se uma profunda mudança das nossas linhas de especialização. O ajustamento estrutural verifica-se permanentemente em todos os mercados, mas em certos períodos assume uma aceleração mais intensa, uma maior concentração, um âmbito mais alargado. São os momentos de salto económico antes da prosperidade, que vivemos nas décadas de 1950 e 1970, que adiámos nos anos 90.
São sempre épocas de expectativa e sofrimento. Muitas decisões falham, várias empresas entram em liquidação, famílias sofrem a pobreza. Todos os planos encontram obstáculos, dúvidas, exigências, adversários. Alguns vão revelar-se originais, revolucionários, ou apenas bem sucedidos. Esses desenharão o futuro modelo da economia portuguesa.
Esse modelo é tema de grande debate. Muito se fala, discute e procura, mas ninguém realmente o conhece. Precisamente pela forma como é concebido, não é possível a nenhuma teoria antecipar-lhe a evolução. Esses sistemas interpretativos, no momento são ficção, posteriormente ficam mais plausíveis, mas são sempre irrelevantes. Porque o modelo económico não existe. Como uma floresta ou uma galáxia, é a vasta resultante de uma fervilhante realidade microscópica. Os contornos, directrizes e linhas de força são abstracções laterais à complexíssima realidade do processo. É como tentar desenhar a esquadro a trajectória de uma avalanche ou pentear um anticiclone.
Esta constatação não é uma crítica à ciência, mas uma afirmação da sua própria natureza. A verdadeira ciência ensina que o núcleo central deste magno fenómeno está nas irredutíveis decisões do empresário, trabalhador e consumidor, perturbados pela mudança de situação, preocupados com a saúde das suas opções, temendo até pela subsistência dos seus. A sua iniciativa, criatividade, improvisação, tal como os erros, confusões e enganos, constituem a única força que empurra o de-senvolvimento.
É normal ficar preocupado perante a assustadora complexidade, imponderabilidade e fragilidade deste processo. Num tempo avançado e científico, deveria ser possível substituí-lo ou, pelo menos, ampará-lo por métodos sofisticados, tecnológicos, planificados. Sobretudo para o Estado, que se arroga o controlo e suporta a responsabilidade da evolução, esta tentação é enorme. Essa é a ilusão que mantém vivos os engenheiros sociais e multiplica os modelos previstos, sugeridos ou implantados na economia portuguesa, os "planos de fomento", "mecanismos de apoio", "choques tecnológicos".
O melhor que a política poderia fazer seria manter a solidez e confiança no ambiente institucional, flexibilizar o processo, agilizar a transformação, aliviar o peso sobre empresas e famílias, apoiar as que falham.
Mas a tentação de controlo é enorme. Ministros e funcionários julgam sempre adivinhar os novos caminhos, apostar nos vencedores, apoiar as inovações. Na melhor das hipóteses, é um enorme desperdício de recursos. Em geral, cria distorções que demoram anos a corrigir. Porque os políticos não fazem a menor ideia das empresas e produtos que a nossa economia vai produzir. Pois nem sequer as empresas o sabem, antes de os mercados terem decretado os vencedores.
A arrogância dos engenheiros sociais, que pretende conceber ou, pior, impor modelos, sempre foi ridícula. Agora está obsoleta.
Mas, felizmente, enquanto os teóricos falam e os ministros decretam, cada empresário e consumidor, aflito na sua circunstância, esbraceja para achar novas soluções e sobreviver nas dolorosas condições do momento. Isso, só isso, constitui a excelência da economia portuguesa.
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