Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


opiniao

A Palestina: um problema teológico?

por

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia  

Em 1977, em Jerusalém, tendo-lhe observado que mais cedo ou mais tarde os judeus teriam de partilhar Jerusalém com os palestinianos, um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita atirou-me: "Nunca! Não esqueça que esta terra nos foi dada por Deus há três mil anos!" Já antes me tinha confessado que era ateu, mas formara os filhos no conhecimento da Bíblia e celebrava a Páscoa como está determinado. E eu percebi melhor como tantas vezes a religião não passa de cimento ideológico político. De facto, sobretudo desde a fundação do Estado judaico, há dois povos com a consciência de que a Palestina lhes pertence, respectivamente, há três mil e quase 1400 anos: os judeus reportam-se ao reino de David e Salomão - ano 1000 a. C. - e os palestinianos à conquista pelos árabes em 636 d. C.

Desde o século XIX, o movimento político sionista lutou por um Estado para o povo judeu - pensou-se na Palestina e também noutras regiões. Assim, embora a tenha apressado, o Holocausto não foi a causa da criação do Estado judaico. Em 29 de Novembro de 1947, por maioria sólida e com o beneplácito dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, as Nações Unidas aprovaram a divisão da Palestina em dois Estados: um Estado árabe e um Estado judaico, com fronteiras claras, a união económica entre os dois e a internacionalização de Jerusalém sob a administração das Nações Unidas. Note-se que, apesar de a população árabe ser quase o dobro e os judeus estarem então na posse de 10% do território, ficariam com 55% da Palestina.

O mundo árabe rejeitou a divisão. Mas, à distância, mesmo admitindo a injustiça da partilha e suas consequências - é preciso pensar na fuga e expulsão dos palestinianos -, considera-se que a recusa árabe foi "um erro fatal" (Hans Küng). Isso é reconhecido hoje também pelos palestinianos, pois acabaram por perder a criação de um Estado próprio soberano pelo qual lutam. Em 15 de Maio de 1948, terminava o mandato britânico sobre a Palestina e Ben Gurion proclamou o Estado de Israel. A resposta árabe (palestinianos e Estados árabes vizinhos) não se fez esperar, e deflagrou a primeira de seis guerras. Entretanto, o Estado de Israel continua a não ser aceite por muitos árabes e há judeus que acalentam a tentação do sonho de um Estado que abrangesse toda a Palestina. E aí está um dos focos principais de instabilidade mundial.

Como já deveria ter-se tornado claro, a guerra não gera a paz, que só pode chegar mediante o diálogo, a diplomacia, cedências mútuas, com dois pressupostos fundamentais: o reconhecimento pelos Estados árabes e pelos palestinianos do Estado de Israel e o reconhecimento por Israel de um Estado palestiniano soberano viável (é pura utopia irracional pensar em Jerusalém como capital dos dois Estados ou na sua internacionalização?).

No conflito do Médio Oriente, estão envolvidos homens e mulheres que de um modo ou outro estão vinculados às três religiões monoteístas. A mensagem dessas religiões, apesar de todas as tragédias históricas, é de paz. Lê- -se em Isaías: "Transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a sua espada contra outra e não se adestrarão mais para a guerra." No Sermão da Montanha, Jesus declarou "bem-aventurados os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus". No Alcorão, apesar da exortação à "preparação de toda a força" contra os infiéis, ordena-se: "Mas se eles se inclinarem para a paz, inclina-te tu também para ela. E confia em Deus!"

O conflito do Médio Oriente é sobretudo político. Mas, como escreveu o teólogo Hans Küng, em duas volumosas obras fundamentais - O Judaísmo e O Islão -, não haverá paz nem no Próximo nem no Médio Oriente enquanto os membros das três religiões monoteístas, que se reclamam de Abraão, se não tornarem activos politicamente, impedindo o fanatismo religioso.

Assim, com base na Bíblia hebraica e no Novo Testamento, judeus e cristãos devem empenhar-se no reconhecimento da dignidade dos povos árabes e islâmicos, que "não querem ser as últimas colónias" sobre a Terra. Com base no Alcorão e no Novo Testamento, muçulmanos e cristãos devem comprometer-se com a exigência do reconhecimento do direito à vida do povo judaico, que "sofreu mais do que todos os outros ao longo dos últimos dois mil anos".

Com base na Bíblia hebraica e no Alcorão, judeus e muçulmanos devem empenhar-se a favor da "liberdade ameaçada das comunidades cristãs" em muitos países do Próximo e do Médio Oriente.


ImprimirImprimirEnviar por EmailEnviar por Email
PartilharPartilhar


Especiais

Recuar
Avançar
PUBLICIDADE


PATROCÍNIO
sondagem

Inquérito DN

Se tivesse possibilidades económicas compraria uma viagem ao espaço?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados




Desporto

Todas as notícias

Todas as notícias

Cartaz

PLANO GERAL

PLANO GERAL

Portugal

Facebook

Facebook

Televisão

Guia TV

Guia TV

Portugal

Twitter

Twitter




Diário de Notícias, 2009 © Todos os direitos reservados | Termos de Uso e Política de Privacidade | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos