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por
Maria José Margarido
Rui Coutinho (foto)
Aida e Celeste já estão na estação às oito da manhã, embora o comboio que aproveita o vale cavado pelo rio Tua até desaguar nas águas largas do Douro só parta daí a 21 minutos. O horário é estranho e reduzido, como estranho é ver uma estação histórica cheia de vidros partidos, a desmoronar-se sobre a via ao mesmo tempo que outra, nova e verde, se ergue a uns cem metros para albergar as carruagens do metro de superfície de Mirandela. Dizem que a via está moribunda, que a intenção é encerrá-la: se isso acontecer, Aida e Celeste e mesmo o senhor António, que ainda não decidiu se vai passar o próximo mês nas termas, não poderão voltar a apanhar o comboio para ir aos banhos de S. Lourenço, 2,5 euros por 20 minutos numa banheira regeneradora.
O comboio vai chegando, mas não é um comboio: são duas carruagens também verdes, construídas em 1995 no Porto a partir da carroçaria das chergas, robustas Napolitanas e Alsthom9020 que aqui circulavam antigamente. Há 12 anos que o panorama mudou e foi substituído por estas composições, que pertencem ao metro da cidade e têm letras a dizer Mirandela-Bruxelas, um toque surrealista numa linha que ainda demora hora e meia a percorrer. Um metropolitano no espaço rural. Na gestão que a CP entregou à empresa privada de Mirandela não há lugar para saudosismos: o Governo diz que não tem procura, mas na viagem de regresso, a partir do Tua, os passageiros esgotaram a lotação. Vieram do Porto, Gaia e Matosinhos para passar o dia na cidade das alheiras e apreciar uma linha que muitos dizem ser das mais bonitas do mundo.
E é mesmo. Aida e Celeste sentam-se à frente para olhar a paisagem, embora já a tenham visto no dia anterior: estão decididas a passar uma semana neste vaivém até aos banhos, o bilhete da ferrovia com redução para os seus 70 anos custa "quatro euros e pouco, ida e volta". O horário apertado obriga-as a despacharem-se em S. Lourenço, têm uma hora para o tratamento às dores nas costas, e regressam no comboio que passa às 10 e 30. No total, saem do Tua duas composições, às 10.06 e 18.15; e de Mirandela três, às 08.21, 16.31 e 18.19. As ligações com a linha do Douro (São Bento, Porto e Pocinho) estão, por vezes, articuladas com este horário - outras vezes não.
"O comboio não pode acabar, senão estas aldeias ficam abandonadas". A convicção do senhor António faz sentido para locais como Ribeirinha, Vilarinho ou Cachão, sem estrada a passar perto e longe até dos apeadeiros-fantasma que as servem, aqueles onde o comboio passa a apitar mas quase nunca entra ou sai ninguém. D. Ana, que embarcou na viagem de regresso a Mirandela, há-de dizer que quem lá estiver tem de esticar o braço, "como se estivesse a mandar parar a carreira", senão as carruagens não se detém nos trilhos. Quem viaja cá dentro tem de avisar o condutor - aqui já não há maquinistas - de que precisa de sair em determinado troço do caminho-de-ferro, "seja Brunheda, Tralhão ou Codeçais".
Não é nisto que pensam Aida e Celeste, e mesmo o senhor António, quando o comboio vence os primeiros de 54 quilómetros entre Mirandela e o Tua ao som do que passa no rádio de metropolitano, She drives me crazy. Já têm a cabeça nos banhos e no rio, aqui rodeado de precoces tons outonais. Há um casal de turistas portugueses com dois filhos, mais outro de meia-idade, portuense, e um solitário entusiasta dos caminhos-de-ferro que passa toda a viagem de pé, a fotografar com uma máquina minúscula. No meio do arvoredo que ainda vai aparecendo até à Brunheda, com o Tua a correr fininho e discreto, surge um homem na lavoura, um burro, uma camioneta abandonada e ferrugenta. José Sousa Pereira, revisor nesta linha desde 1978, avisa que vamos atravessar seis túneis escavados na rocha, lá mais à frente, e lembra-se da altura em que "os nossos comboios chegavam a Bragança".
Já não chegam, mas pelo menos toda a gente se esqueceu que está numa carruagem de metro quando as curvas, voltas e reviravoltas começam a ser cada vez mais frequentes, o carril construído mesmo à beira do abismo para um rio que embraveceu a seguir ao Abreiro (onde entraram três passageiros), uma parede de pedra do outro lado. O senhor António já avisara, "daqui para é frente são só fragas rochosas", e de repente toda a gente - menos os passageiros frequentes, os que vão a banhos - está de pé e curva a cabeça quando o comboio passa nos túneis escuros, dobras improváveis de montes onde, apesar do isolamento, os homens fizeram socalcos, plantaram oliveiras e laranjais, mas "nunca mais voltaram".
Não há nada que passe aqui além destas carruagens, destes passageiros, e quando chegamos à estação do Tua todos têm as pernas doridas do esforço despendido para se manterem a par com o rio. O comboio volta a transformar-se em metro e passa ao lado de um cemitério de carruagens e locomotivas a vapor enferrujadas.
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