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Manuel Esteves
É já um lugar-comum dizer-se que a crise, quando chega, não é para todos. Os dados divulgados recentemente - e pela primeira vez - pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos aos salários dos trabalhadores por conta de outrem (TCO) parecem confirmar esta ideia. Pelo menos no último ano, dado que a informação só existe a partir do primeiro trimestre de 2005, o que impede uma análise mais dilatada no tempo, sem a qual não é possível traçar-se tendências claras e seguras.
Desde o primeiro trimestre de 2005, o número de assalariados com vencimentos mais elevados aumentou quase 60%. A informação consta dos resultados do inquérito ao emprego, divulgados na semana passada, e mostra que o número de TCO com rendimentos salariais mensais líquidos superiores a três mil euros aumentou 59,4% entre o primeiro trimestre do ano passado e o segundo trimestre deste ano. E embora esta estimativa do INE acarrete um desvio-padrão elevado (mas dentro dos limites aconselhados pelo organismo estatístico) que recomenda alguma prudência na análise (ver texto ao lado), o crescimento parece ser sustentado. Com efeito, de 16 mil, no primeiro trimestre do ano, este número passou para cerca de 21 mil nos últimos três meses de 2005, para atingir os 23 mil no primeiro trimestre de 2006. Nessa altura, o crescimento acumulado era já de 43,75%. Três meses depois, o grupo dos assalariados com rendimentos salariais mais elevados voltou a subir, para 25,5 mil.
Em termos relativos, o grupo dos mais bem pagos viu o seu peso no conjunto total de TCO subir de 0,4% para 0,7% no espaço de um ano e três meses. Nos outros escalões, a evolução foi distinta. No mais baixo (rendimentos inferiores a 310 euros) registou-se uma redução de 10,4%, enquanto no escalão seguinte (entre 310 e 600 euros), o número manteve-se constante. Já nos três escalões seguintes verificou-se um crescimento expressivo. O número de trabalhadores com salários mensais líquidos entre os 600 e os 900 euros aumentou 10%, enquanto o grupo daqueles que recebem entre 900 e 1 200 euros e entre 1 200 e 1 800 euros cresceu 12,7%. Crescimentos expressivos, mas muito distantes do aumento registado no escalão mais elevado.
Em termos de estrutura, aconteceu o que era previsível. Dado que os escalões são fixos, há uma tendência geral de ligeira progressão resultante da actualização salarial, com uma redução maior no segmento mais baixo. Os trabalhadores com vencimentos líquidos entre 310 e 600 euros continuaram a ser dominantes (com um peso de 43%), ao passo que o escalão seguinte reforçou em pouco mais de um ponto percentual a sua posição (para 24%).
Assim, segundo as estatísticas do INE, baseadas em inquéritos anónimos, cerca de 70% dos assalariados portugueses auferem rendimentos líquidos inferiores a 900 euros. Quanto aos mais bem pagos, por mais que cresçam em número, continuarão sempre a ser muito poucos.
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