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Daniel Lam
Isto "é igual a um tsunami ou um furacão que passa pelo nosso bairro, porque está a destruir as nossas casas e as nossas famílias e a lançar-nos para a rua. Ficamos na desgraça e na miséria". É esta a imagem que Nelson Pereira, de 26 anos, dá sobre o que sucedeu ontem de manhã no seu bairro. Na Azinhaga dos Besouros, na Amadora, "foram demolidas seis casas e ficaram na rua dez pessoas", disse ao DN uma das activistas do grupo Direito à Habitação da Associação Solidariedade Imigrante, Rita Silva, que foi algemada por agentes da PSP e levada para a esquadra com outra colega.
Naquele bairro degradado, que começou a ser desmantelado há cerca de um ano com o realojamento de moradores em prédios de habitação social no Casal da Mira, a manhã começou ontem agitada. Várias dezenas de polícias cercaram o perímetro, colocaram fitas para impedir a passagem de pessoas, incluindo os jornalistas, e disseram aos moradores para abandonarem as casas. Estavam a preparar o terreno para as máquinas avançarem e demolirem as habitações como se fossem frágeis construções de Lego.
Entre as 09.00 e as 11.20, quando finalmente chegou uma máquina, os moradores ficaram na dúvida sobre o que iria suceder, enquanto activistas do Direito à Habitação gritavam palavras de ordem contra a demolição das casas.
Rosalina Lopes mostrou ao DN um papel que na sexta-feira colaram na sua porta informando que deveria abandonar a casa, porque na semana seguinte iria ser demolida. Mas não especificavam quando. Rosalina, que ali vivia com o companheiro e a filha, queixava-se: "Agora não tenho onde ficar."
O mesmo sucedeu com Daniel, de 43 anos: "Moro aqui desde 1994, estou sozinho e não tenho ninguém. Já não tenho trabalho há seis meses e não sei o que fazer. Pode ser que algum vizinho me deixe ficar num cantinho lá da casa dele."
E essa parece ser a única esperança para esta gente. Nelson Pereira salientou logo que "quem ainda continua a ter casa não vai deixar os vizinhos na rua. Vamos arranjar maneira de ficarem connosco. Algumas famílias vão ter é de se dividir por várias casas, porque não cabem todas juntas no mesmo sítio."
Reclama que "esta atitude está muito errada. Deveriam arranjar primeiro uma solução para as pessoas e só depois demolir as casas. Andam pelas ruas à procura dos sem-abrigo para os alojar. Aqui fazem o contrário. Destroem as casas das pessoas e deixam-nas na rua".
Outros vizinhos queixavam-se que "nunca se sabe como é o dia de amanhã. Vamos trabalhar e corremos o risco de voltar e encontrar a casa deitada ao chão". Uma certeza têm eles: "Ninguém vai ficar aqui. O bairro vai todo abaixo."
Isso mesmo foi confirmado ao DN pela vereadora Carla Tavares, do pelouro da Habitação da Câmara da Amadora. Segundo explicou, no recenseamento efectuado em 1993 para o Plano Especial de Realojamento (PER), a Azinhaga dos Besouros "tinha cerca de 650 barracas, onde viviam 900 famílias, num total de 2800 pessoas".
"Há um ano e meio começaram a ser realojados moradores da Azinhaga dos Besouros nos 760 fogos construídos no Casal da Mira e só restam duas dezenas de famílias abrangidas pelo PER", revelou a autarca. O pior é que no bairro ainda "há umas 30 ou 40 casas ocupadas ilegalmente e quem ali mora não está abrangido pelo PER, pelo que não tem direito a realojamento", esclareceu. Nestes casos, "a única solução é dar-lhes alguns apoios sociais".
"Até ao fim do ano deverão ser demolidas todas as casas degradadas, ficando o terreno livre para ali se construir o prolongamento da CRIL", anunciou Carla Tavares.
Contra estas demolições manifesta-se Rita Silva, do grupo Direito à Habitação, afirmando que "a Câmara da Amadora deveria suspender estas acções até o Conselho de Ministros aprovar, já em Setembro, os programas Prohabita e Porta 65, do Instituto Nacional de Habitação, que vão dar apoios para ajudar as pessoas a alugar casas".
Rita Silva contesta o facto de "estarem agora à pressa a deitar as casas abaixo e a deixar as pessoas na rua sem terem onde ficar".
Ontem, a portentosa máquina desfazia cada casa em escassos três minutos, reduzindo tudo a um monte de escombros. No final da operação, o bairro mais parecia uma povoação de Angola que tinha acabado de ser bombardeada. E dias como este ainda se vão repetir por vários meses até desaparecerem todas as cerca de cem habitações degradadas que ainda ali restam.
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