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Cintra Torres e RTP em fogo cruzado

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Marina Almeida  

A direcção de informação da RTP vai processar judicialmente o crítico de televisão do Público, Eduardo Cintra Torres. Em causa estão as "afirmações e insinuações graves e difamatórias escritas" num artigo publicado no passado domingo naquele diário e em que o crítico acusa a televisão pública de receber instruções directas do gabinete do primeiro-ministro, José Sócrates, e "censurar" a cobertura dos incêndios deste Verão.

Em comunicado ontem divulgado, a direcção liderada por Luís Marinho acusa o crítico de persistir "desde há muito tempo num ataque à informação da RTP baseado em factos falsos e em considerações que atentam contra a honra e o bom nome dos seus profissionais".

Cintra Torres disse ao DN que o seu texto se baseou "no tratamento estatístico de análise de texto e imagem e em testemunhos pessoais". Sublinha que "como investigador", mantém esses dados, "como jornalista" mantém o que lhe disseram as "fontes consultadas" que merecem "o máximo crédito" (em relação às quais se compromete a resguardar a identidade) e "como comentador" mantém a sua opinião.

Na sua crónica, Cintra Torres diz dispor de informações que "indicam que o gabinete do primeiro-ministro deu instruções directas à RTP para se fazer censura à cobertura dos incêndios: são ordens directas do gabinete de Sócrates".

Contactado pelo DN, David Damião, assessor do primeiro-ministro, nega: "é totalmente falso, lamentamos que Eduardo Cintra Torres não nos tivesse contactado antes de escrever o texto". E acentua: "Nunca este gabinete interferiu na linha editorial de qualquer meio de comunicação social."

O dia 'crítico'

No seu texto, o crítico do Público aponta o Telejornal de dia 12 como "uma das peças mais tenebrosas de informação televisiva em Portugal em muito tempo". De acordo com Cintra Torres, "o recorde do ano [a nível de incêndios] ocorreu na sexta-feira, dia 11, com 579 incêndios, mas quem tivesse visto a RTP no dia seguinte não acreditaria nisso".

O DN solicitou à Marktest o alinhamento dos noticiários de 12 de Agosto. Os dados mostram que os 18 incêndios activos no País fizeram abertura no Jornal da Noite (SIC) e no Jornal Nacional (TVI). De acordo com o registo, oito incêndios estavam "fora de controlo" às 20.00. A RTP abriu o Telejornal com a situação no Líbano. Os incêndios surgem no alinhamento às 206, 17 peças depois, em três apontamentos que duraram minuto e meio.

Recorde-se que em Junho, a RTP propôs às televisões privadas um acordo de autoregulação na cobertura dos fogos de Verão. SIC e TVI disseram preferir a "reflexão interna". A RTP adoptou um documento próprio. O DN tentou obter mais esclarecimentos de Luís Marinho mas este não esteve disponível até ao fecho desta edição.

Já o presidente da Entidade Reguladora dos media (ERC), José Azeredo Lopes, admitiu que "a acusação [de Cintra Torres] é gravíssima". Dizendo que prefere "esperar para ver" antes de tomar qualquer iniciativa [o Conselho Regulador da ERC reúne-se na quinta-feira], considera que há duas questões que se levantam: "a independência informativa da RTP" e a crónica em que Torres "não utiliza elementos mais concretos do que o ouviu dizer".


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