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por
Kátia Catulo
Tiago Lourenço (foto)
Quase ninguém deu pelo barulho. O ruído do motor começou primeiro lá longe e depois foi ficando mais perto e mais perto até chegar à Praça Marquês de Pombal, no centro de Porto Covo. Os animais ficaram inquietos, os homens interromperam a cavaqueira, os miúdos deixaram de brincar e as mulheres saíram da cozinha a correr. "Um carro novo em folha passou por aqui e seguiu em frente sem parar", recorda Joaquim da Silva. Foi a primeira vez que os habitantes de Porto Covo viram um automóvel na vila. Vinte anos mais tarde, conta o alentejano, toda a gente se habituou aos engarrafamentos para entrar no parque de campismo ou para almoçar n'A Falésia.
E agora quem vive em Vila Nova de Milfontes, Zambujeira do Mar ou Porto Covo sabe que o ano já não está dividido em antes e depois das colheitas da batata, do milho, do tomate ou da abóbora. Na vida do alentejano do Sudoeste deixou de existir tempo da sementeira, maré baixa e maré alta e passou a "haver o Inverno de cara triste e Verão de cara alegre", explica Joaquim. Hoje não há sequer uma quinta a funcionar e quase ninguém trabalha nos campos: "Depois de o Toino morrer no ano passado só ficou o António Luz, que é o único a semear batatas ao lado da barragem do Morgavel, em São Torpes." Outros acabaram por tirar proveito de quem ali vai passar as férias: "Os que têm filhos que foram para as cidades arrendam os seus quartos aos turistas e assim engordam um pouco mais as pensões."
O rebuliço de Verão vai servindo para "fazer algum negócio" ou entreter quem, a meio da tarde, se deixa ficar no largo da igreja à espera da hora do jantar. "A gente gosta de ver esta animação, mas às vezes é um desassossego", avisa António Maria. Quem vem de Lisboa, da Guarda ou do Porto esquece-se que o "respeito é bonito" e abusa da paciência do alentejano. O pior é que há "gente cá da terra que vai atrás dos moços da cidade". Bebem além da conta e andam pelas ruas a bater nas portas dos que se acostumaram a dormir cedo.
António Maria, de Porto Covo, nem se atreveria a queixar se soubesse o que se passa na Zambujeira do Mar durante a primeira semana de Agosto. Florivale Pereira e Nuno Lourenço até fogem da vila onde nasceram sempre que podem. E quando regressam encontram cabinas de telefone partidas, lixo em todos os becos e garrafas de cerveja a ocupar os seus bancos de jardim. "A gente com a idade que tem gosta de descanso", justifica Nuno Lourenço.
Houve quem, no entanto, aprendesse a tirar partido do Verão. Se não fossem os turistas o que seria dos pescadores da Vila Nova de Milfontes, em Odemira? "É só nessa altura que conseguimos vender bem o peixe", diz Joaquim Estronca.
Pargo, robalo e salmonete são retirados das redes directamente para os restaurantes da vila. Durante o Inverno o preço não sobe mais do que cinco euros o quilo, no Verão quase triplica: "Todos os dias vamos ao mar para abastecer mais de 50 estabelecimentos", explica o pescador.
Animado, lucrativo ou desassossegado, os habitantes do Sudoeste alentejano nem por nada queriam os turistas o ano inteiro. "A gente precisa do Inverno para descansar do Verão", diz José Guilhermino, pescador na Zambujeira do Mar.
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