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por
Maria José Margarido
Rui Coutinho (foto)
O líquido espesso é cor de ouro ferrugento, mas o que impressiona é a consistência, as golfadas açucaradas, hesitantes, com que se vai enchendo um bidão. Estamos numa autêntica fábrica de mel, mas antes dos cinco seres humanos que agora extraem o néctar dos favos houve o trabalho dedicado de milhões de abelhas, entusiasmadas com a floração que ainda dura em Trás-os-Montes. Na Casa do Mel de Bragança, sede de uma associação que congrega 300 apicultores de Montesinho, o "gado de colmeia" é mais valioso que a vaca barrosã. E do seu esforço começa agora a ser feito um produto inovador e biologicamente per- feito: sabonete de mel e azeite, "com efeito regenerador e curativo". Para já ao alcance de poucos consumidores, mas com vontade de chegar além destes montes.
"Não é mezinha, é mesmo verdade" que este sabonete, feito em partes desiguais de mel (10%), azeite (70%) e outras substâncias, "faz bem". Garantia e certificação ainda não existem, "é um produto directo", artesanal, saído da imaginação de Manuel Gonçalves, presidente da associação de apicultores de Montezinho, que entre todos dão conta de 14 mil colmeias. Mas nem por isso a coisa é menos científica: foi contratado um investigador, Manuel Villalobos, especialista em engenharia química, para encontrar a fórmula de alquimista que transforma o mel em sabonete. Depois, foi só fazer uma parceria com uma empresa de produção de azeite, que esta é terra empreendedora.
O 'marketing' da coveira
Manipulações científicas à parte, o Sabonete de Azeite e Mel do Parque deMontezinho (designação oficial e rotulada), que já vendeu quatro mil unidades em três meses, deve muito da sua fama à coveira. Expliquemo-nos: na remota aldeia de Paredes existia uma senhora que trabalhava no cemitério local, cuidando dos corpos cuja alma já tinha sido encomendada. "A certa altura, morreu mesmo toda a gente, e a coveira ficou sem ocupação. Veio trabalhar para aqui, ao abrigo de um programa de desempregados de longa duração no qual participamos." Aliás, os cinco trabalhadores da Casa do Mel integram este regime: Manuel Gonçalves não desperdiça subsídios.
Adiante, ou melhor, de volta aos sabonetes. A coveira era mulher de pouca fé nas propriedades do que ela própria produzia, até que não aguentando mais a secura dos seus calcanhares e a extensão de certas feridas a todo o pé, quem sabe por muito ter calcorreado os caminhos da morte, levou um sabonete para casa às escondidas e cuidou de o experimentar. Passados escassos 15 dias, o milagre: as chagas estavam curadas e o "sabão de abelha" ganhou a melhor publicidade grátis que poderia ambicionar: o boca-a-boca da população. Já é vendido em duas lojas no Porto, no mercado de Bragança, em casas de turismo rural da região e feiras.
Mestre pasteleira
É das mãos de Maria José, ex-emigrante na Suíça, que nascem todas as semanas 150 a 200 sabonetes. São seis horas diárias de trabalho para misturar o mel, o própolis, a cera e o azeite com artes de mestre pasteleira, enquanto espera pela compra de uma máquina que a substitua nesse trabalho braçal. De resto, apenas é necessário um fogão, uma balança de precisão e a matéria-prima. Deita a massa de sabonete em formas cuja base é um favo delicado, tecido pelas mestres abelhas. Parecem pães, o cheiro é delicioso, dá vontade de comer. O resultado, com ingredientes misturados em diferentes proporções a pensar em peles secas, oleosas e mistas, é colocado a secar ao ar, "não há outra forma". A Casa do Mel, um abrigo rústico de pedra no meio de Bragança, está também a começar a produzir um creme apenas à base de própolis, e já se lançou na elaboração de peças decorativas de cera pura - e Manuel Gonçalves exibe o presépio mais doce do mundo.
As artesãs anónimas da matéria- -prima estão, até ao final do mês, a preparar-se para a hibernação. São capazes de dar a estes apicultores, julgando estar a produzir mel para o seu próprio enxame, 200 toneladas de néctar por ano, 18 a 22 quilos por colmeia. Só acordarão em Fevereiro, e apenas viverão 20 a 30 dias de azáfama na construção de favos, em voos rasantes até às flores de castanheiro e de urze para recolher o pólen, na produção do estranho própolis - Manuel Gonçalves enrola esta espécie de cola entre os dedos e lembra as suas propriedades terapêuticas e de embalsamamento de pessoas e animais. "Uma vez entrou um rato do campo numa colmeia, elas mataram- -no com o ferrão e propolizaram-no todo. Estava inteirinho dentro do sarcófago, tal como morreu... e sei lá há quanto tempo..."
O mel que aqui é produzido é DOP e exportado para paragens tão longínquas como a Alemanha, Noruega, Bélgica "e Marrocos, durante o Ramadão: o nosso produto tem muitos sais minerais". Mas também é vendido, com uma torneira improvisada num bidão, a quem vai à Casa do Mel com o seu tradicional frasco, para atestar mais uma dose. Na terra onde o gado é de colmeia e os bagos são de pólen, o ouro ferrugento não pára de correr.
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