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Luís Naves
em Szeged
A margem esquerda da pista de canoagem tem barracas de comida e de roupa, pode beber-se cerveja, comprar um chapéu e passar ali o dia a olhar a tranquila lagoa, onde as tripulações quase parecem voar no reflexo azul-celeste. O público, antes de chegar às bancadas, verá uma barraca grande que mostra caiaques de marca Nelo, nome que soará estranho, pelo menos nestas paragens. Não há ali bandeira portuguesa, mas podia haver, porque Nelo é uma marca nacional.
No Campeonato do Mundo de Caiaque e Canoa, que ontem começou na imensa pista de água dos arredores de Szeged, no Sul da Hungria, muitos barcos têm marca Nelo e quatro em cada cinco tripulações europeias estagiaram no Inverno em Portugal. Enfim, com estes indícios não será preciso ser Sherlock Holmes para concluir que o País tem vantagens potenciais na globalização da canoagem.
Nestes campeonatos mundiais, que se prolongam até domingo, participa uma equipa portuguesa constituída por cinco atletas, com ambições em sete provas. A concorrência é proveniente de 82 países (um total de 1200 participantes, número recorde), alguns com tradições na modalidade.
A pista de Szeged tem condições fantásticas. Em primeiro lugar é enorme, com mais de dois quilómetros de comprimento e sectores de apoio para os 50 mil espectadores que se esperam aqui, amanhã e depois. Esta é a infra-estrutura desportiva mais importante da cidade de 200 mil habitantes, que mantém uma ópera e orquestra sinfónica, várias piscinas de grande dimensão, mas cujo estádio de futebol faria sorrir qualquer português de uma vila de mil pessoas.
Szeged, nas margens do rio Tisza, tem tradições na canoagem e um clube com uma atleta que ganhou ouro olímpico. Mas os barcos, aqui, são Nelo e, no Inverno, a selecção húngara também prefere treinar em Portugal. O canal de retorno da pista de Szeged ou os reluzentes tubos das bombagens a montante só por si não explicam as medalhas húngaras. E os jovens centro-europeus não são mais capazes de duras cargas de treino (entre quatro a cinco horas diárias, muitas vezes ao frio).
"Na minha opinião", afirma Mário Santos, o jovem presidente da Federação Portuguesa de Canoagem, "este é um dos poucos desportos nos quais Portugal pode obter resultados". O clima português é "excelente", mas, por outro lado, "faltam infra-estruturas de apoio" e, para competição, "não temos uma pista com estas condições".
Para o dirigente associativo, o desporto é barato e fácil de praticar (embora o treino seja muito exigente). Na sua opinião, nas camadas jovens começam a surgir muitos atletas com qualidade e os resultados de uma boa estratégia para os desportos náuticos poderão concretizar-se no espaço de uma década. Segundo Mário Santos, o País precisa de duas ou três pistas de velocidade, para treino de competição.
Este campeonato, ontem ainda na fase eliminatória, começou bem para os portugueses (ver caixa). A equipa nacional chegou aqui, apesar de tudo, com uma vantagem: o protocolo com o fabricante Nelo que permitiu o transporte gratuito dos barcos, o que diminuiu os riscos da viagem, garantindo caiaques e canoas livres de problemas.
Com vantagens assim, mesmo as que o País não aproveita, a canoagem portuguesa tem progredido velozmente. Nos últimos campeonatos da Europa de juniores de sub-23 (onde a aposta da federação foi maior do que nestes mundiais), a equipa nacional conseguiu duas medalhas e a presença em 11 finais. Aliás, perante o nível elevado de muitos países (Alemanha, Rússia, Polónia) a participação numa final A (nove melhores), é um resultado considerado excelente.
Neste Campeonato do Mundo de Caiaque e Canoa, a representação portuguesa tentará estar presente em sete finais, embora a intenção seja a de avaliar a equipa e preparar os apuramentos olímpicos, previstos para os Mundiais do próximo ano, na Alemanha.
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