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Um em cada 300 infectados com HIV não desenvolve a doença

por

Rute Araújo  

Um dia, quando estava com febre e gripe, Loreen Willenberg sonhou que era HIV positiva. Logo que acordou, decidiu fazer o teste e, depois de um resultado inconclusivo, descobriu que estava infectada. A confirmação chegou em 1992 e hoje, com 52 anos, Loreen continua de perfeita saúde sem nunca ter tomado um único anti-retroviral.

Esta americana, residente na Califórnia, integra um grupo de doentes a que os especialistas chama de "elite" - estima-se que haja um em cada 300 infectados. Apesar de contraírem o vírus, nunca desenvolvem a doença nem sofrem qualquer dano no sistema imunitário. Loreen Willenberg diz que, em 14 anos, apenas teve uma constipação.

O fenómeno é conhecido há alguns anos mas, até agora, ninguém conseguiu perceber porque é que estas pessoas conseguem viver com o vírus 15 anos, ou mais, sem nunca serem afectadas. Um grupo de especialistas está a tentar resolver o mistério, na esperança de contribuir para o desenvolvimento de uma vacina ou de novos tratamentos.

Durante a 16.ª Conferência Internacional sobre Sida, que termina hoje em Toronto (Canadá), um grupo de investigadores da Harvard Medical School anunciou que vai procurar estas pessoas para estudar o seu mapa genético. O objectivo é encontrar mil nos Estados Unidos (estima-se que existam dois mil) e tantos quanto seja possível no resto do mundo. "Se conseguirmos descobrir como é que isto acontece, podemos replicá-lo", afirmou Bruce Walker, um dos investigadores. Os cientistas vão recolher amostras de sangue e de ADN e comparar as suas sequências genéticas com a dos doentes com HIV/sida, para perceber as diferenças.

A alimentação como arma

"Não podemos ganhar a guerra contra o HIV/sida apenas com medicamentos." O alerta foi dado por Robin Jackson, do Programa Alimentar Mundial (PAM). De acordo com esta organização, a fome é uma das grandes responsáveis pela propagação da doença, facilita a transmissão do vírus, torna os tratamentos menos eficazes e leva milhares de mulheres a terem relações sexuais de risco. "Financiar tratamentos anti-retrovirais sem abordar a questão da nutrição é como gastar uma fortuna para arranjar um carro quando não se tem dinheiro para a gasolina", afirmou também James Morris, director do PAM. O Haiti é um exemplo do que pode ser feito neste campo. Cerca de 70 doentes recebem todos os dias comida no hospital central de Lascahobas, um suplemento alimentar correspondente a 1500 quilocalorias. O programa, financiado pelas Nações Unidas, tem como objectivo combater aquilo que muitos dos habitantes deste país sentem: "Mais vale morrer amanhã de sida do que hoje de fome."


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