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De Fidel a Grass

por

Luís Delgado

Jornalista  

1. Meu Deus: um esquerdalho puro e duro, do mais radical que existe e existiu, Nobel da Literatura, que após o 25 de Abril era uma das fontes de inspiração de grupos que queriam o modelo estalinista e/ou maoísta em Portugal, e que disse e escreveu prosas intolerantes e delirantes sobre a democracia ocidental, de nome Günter Grass, revelou agora, mais de 50 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, que tinha sido membro das SS, de Himmler.

Fantástico. A variação ou deriva mental não é de espantar: passou de um radicalismo para outro, sendo que no primeiro caso é preciso dizer algumas coisas: não entrou nas SS por azar, ou sorteio, mas por escolha e decisão própria, como era obrigatório, prestando um juramento de total e absoluta fidelidade a Hitler, a Himmler e ao regime nazi.

Era a "raça" escolhida, a guarda pretoriana do regime, cujo fanatismo perdurou até às últimas horas. Eram eles que guardavam os campos de concentração, autores do Holocausto, que matavam sem arrependimento, e que praticaram os maiores e mais horrendos crimes da Segunda Guerra Mundial, tanto contra a sua própria população como em todos os países que ocuparam e destruíram.

Pertencer às SS, na circunstância, e isso Günter Grass tem de dizer e explicar, não foi fruto do acaso, mas uma escolha premeditada, consciente e assumida. Já agora convém saber tudo o que fez, sendo que implicitamente, mesmo que por omissão, ajudou a cometer todos os crimes contra a humanidade que são imputados às SS. Uma vergonha. Jamais teria recebido o Nobel da Literatura, se tivesse tido a grandeza de revelar o seu passado.

2. Fidel Castro está a recuperar da cirurgia a que foi sujeito, e comemorou os seus 80 anos numa posição de fraqueza raramente vista no líder cubano. Dizem as fontes oficiais que já trabalha, e ninguém se espantará se aparecer, dentro de dias, numa das suas famosas e intermináveis cerimónias.

A doença de Castro tem levado a centenas de análises sobre o país e o futuro do regime, acreditando a maioria que o fim de Castro, e do Estado que governa, tem os dias contados. Ou seja, para muitos ele é o regime, e tudo ruirá no momento em que ele desaparecer.

Pode ser. Mas convém recordar dois ou três factores: Castro sempre foi, antes de mais, um mito construído e alimentado pelos EUA e por milhares de refugiados que estão na Florida, mais do que propriamente uma grande e verdadeira ameaça, exceptuando os anos 60.

Para os EUA é interessante ter ali um inimigo, para Castro igualmente, porque sempre permitiu alimentar a revolução, mas a verdade é que tudo teria acabado, há muitas décadas, ou pelo menos a partir dos finais dos anos 80, se a política externa dos EUA tivesse mudado em relação a Havana, como defendia Richard Nixon.

Se, por essa altura, os EUA tivessem levantado o bloqueio e inundado o país com dólares e turistas, o regime cairia ou mudaria, tal como aconteceu em tantas outras ditaduras de partido único, que foram desaparecendo tranquilamente, com os próprios ditadores a fazer e liderar a transição para a democracia. Há exemplos em todo o mundo.

Infelizmente, a comunidade cubana nos Estados Unidos é muito forte, em termos financeiros e eleitorais - pode dar uma vitória ou ajudar numa derrota presidencial -, e por isso é um assunto intocável, seja para os republicanos, seja para os democratas.

Clinton percebeu isso, melhor do que ninguém, mas nada fez para mudar as relações entre Washington e Havana.

Agora todos esperam que o assunto se resolva pela ordem natural das coisas, mas é certo que muitos sacrifícios teriam sido poupados ao país, e à sua população, se a abordagem tivesse sido outra, e há muitas décadas.

3. A ingenuidade avoluma-se no Médio Oriente: a resolução da ONU é um papel interessante, mas que na prática vai deixar tudo em aberto, como convém.


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