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por
João César das Neves
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário
O nosso tempo é dominado por uma questão decisiva. Temos muitos problemas graves mas só uma clivagem básica. Na maior parte dos dramas actuais, do terrorismo à globalização, do subdesenvolvimento ao aquecimento global, domina um consenso ou, quando muito, há escaramuças. A nossa grande divisão, pela qual um dia a História nos julgará, está na família. E essa pode ser resumida a uma escolha de omeletas...
A família é a instituição mais natural e antiga da humanidade. Embora com variantes, todas as culturas sempre a tomaram como base. Vivemos o primeiro tempo que despreza, confunde e ataca a família. Telenovelas e documentários, romances e debates políticos preferem e fomentam outras formas de vida, da solidão à promiscuidade, passando por várias pseudofamílias. Por isso, esta é a questão do nosso tempo, a única questão de fundo do nosso tempo.
Esta polémica é bastante curiosa, porque a ciência manifesta uma preferência declarada pela estrutura clássica. Psicologia, Sociologia, Economia e Ciência Política demonstram e descrevem as enormes vantagens pessoais e comunitárias de uma família estável e funcional. Na educação das crianças, no equilíbrio dos jovens e adultos, no amparo dos idosos, no trabalho e produção, na cidadania e segurança social, não existem dúvidas de que ela constitui a principal base da comunidade. Dificilmente se encontra uma realidade que reúna um maior aplauso oficial.
Os ganhos e benefícios de um apoio activo à família são, portanto, enormes. Muito superiores aos da promoção do desporto e cultura, segurança rodoviária ou higiene alimentar. Apesar disso, as instituições sociopolíticas não só não fomentam o casamento e a estabilidade familiar mas, pelo contrário, empenham-se activamente na facilitação do divórcio e do aborto, na equiparação de outras formas de vida e, em geral, no ataque à família. A razão deste paradoxo é fácil de identificar quando se nota que, contra hábitos culturais, resultados científicos e o mais elementar bom senso, se perfila um poderosíssimo preconceito ideológico.
A ideologia é uma das forças mais portentosas da História. O século XX mostrou bem como doutrinas extremistas conseguiram durante décadas defender com sucesso posições insustentáveis, contra a democracia, a igualdade ou a propriedade privada. Hoje, de forma paralela, é patente um ataque devastador contra o que toda a gente sensata defende: a família.
De onde vem esta insólita situação? As ideologias sinistras do século passado nasceram do desespero, miséria e violência, mas o preconceito antifamiliar, paradoxalmente, tem origem no egoísmo e cobiça da prosperidade. O problema essencial vem da atitude superficial e interesseira da sociedade de consumo. Quando se busca apenas o prazer e a realização pessoal, as relações humanas tendem a conceber-se como meros envolvimentos baseados em interesses. Raramente são verdadeiros compromissos. Para compreender a distinção essencial entre "envolvimento" e "compromisso" costuma usar-se o exemplo da omeleta de fiambre: nela, a galinha envolveu-se, mas o porco está comprometido. Esta é a questão decisiva. As "famílias" modernas são como omeletas de queijo, em que todos participam e contribuem, sem ninguém dar nada de si. Por isso são efémeras, flexíveis, desmontáveis. Cada um empenha-se no emprego, na imagem, no clube, mas não em casa.
Outra dimensão do mesmo fenómeno é o desrespeito pelas regras naturais. A vida deixou de ser vivida como é, para pretender ser controlada por caprichos. Assim se entende a importância que a ideologia concede à procriação artificial, aborto, eutanásia e aberrações sexuais, formas de impor a soberania artificial sobre a natureza. Como se fosse possível fazer omeletas sem ovos.
Uma verdadeira família só nasce da entrega pessoal e incondicional de todos os seus elementos a uma vida comum. Esposos, pais, filhos, avós, parentes, na harmonia como na zanga, jogam a sua existência total nesse agregado e dele recebem vida e sustento. O exemplo tradicional da "árvore genealógica" descreve bem esta realidade, onde a separação equivale à amputação e à morte.
A História ensina que o bom senso e a natureza acabam por vencer. Ao contemplar as ideologias nazi e comunista, que hoje parecem tão tolas, não compreendemos como há 50 anos elas seduziram tantos intelectuais e a luta foi tão renhida. Daqui a gerações também haverá dificuldade em compreender a nossa questão decisiva.
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