Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


boa_vida

Senhores das marés

por

Isabel Lucas

José Carlos Carvalho (foto)  

Os homens da Carrapateira dizem que é a melhor pedra do mundo. "A Galé já ajudou a criar muitos filhos", afirma José Sobral, "com a licença" de um dos mais antigos percebeiros da região. "É muito rica", confirma José Lucas, 65 anos e no mar há 37. Segue ao leme do Mónica no regresso a terra depois de duas horas ao marisco e não se distrai na conversa porque "no mar não há caminhos bons". Chama-se José Lucas mas chamam-lhe Zé Cinzento. É que no mar os homens são como as rochas: todos têm um nome que não é obrigatoriamente o de baptismo.

Zé Cinzento afirma que apanhou "os primeiros percebes que o mar criou" e a frase serve de certificado de antiguidade. Agora já não sai todos os dias, mas ontem vestiu o fato de mergulho. "A ver se eu faço a manhã mais pequena", atira depois de pedir boleia a José Sobral, o Aranha, pescador/percebeiro que levou com ele, como leva quase sempre, José Marreiros, o Fininho, amigo de há 20 anos, companheiro de muitas apanhas e com quem faz o que poucos percebeiros fazem: apanhar marisco para o mesmo saco. Os três Zés são percebeiros encartados e vão fazer-se ao mar no porto da Zimbreirinha, o mais antigo dos portos da costa de Aljezur. É sábado, ainda não são nove da manhã e já estão no Sítio do Forno, a norte da praia do Amado. Nas arrecadações dos pescadores, traçam o plano de trabalho. Está o que Zé Cinzento chama "um mar de senhoras". Aranha não desmente o mestre. "O mar 'tá bom", concorda, mas se forem para a Galé terão de levar um barco grande "por causa da agulha", justifica, referindo-se ao nevoeiro que naquela manhã tapa o mar mesmo a quem está na praia.

A Galé é uma ilhota disputada por todos os percebeiros, mas só está ao alcance de alguns. Os três Zés conhecem-na bem e garantem que não há percebes mais saborosos que os que ela dá. Além disso "é um sítio lindo", apresenta Fininho, o diplomata do grupo, que gosta de falar das belezas da terra. Tem 53 anos e faz da sua actividade uma condição. "Sou daqui e quando era jovem havia muitas dificuldades de trabalho." Assim começou a história de Fininho, a quem Aranha, o mais novo dos três, alcunha de Fino e que nunca fez outra coisa na vida. "Antigamente esta era uma profissão olhada com pouco respeito; agora é uma actividade de luxo", conta o percebeiro, que esta semana não esteve um dia sem ir ao mar. "É assim enquanto der; mas lá descansamos um dia ou outro para curar as feridas", justifica, mostrando as cicatrizes que colecciona nas mãos. Aranha também ainda não curou as dele. São recentes, "de ontem", diz enquanto prepara a mistura de combustível para fazer trabalhar o motor a dois tempos do seu Mónica. É dele o pesqueiro que há-de levar os homens até à Galé quando forem dez e meia para aproveitar a maré das onze. Depois serão mais duas horas a escavar a rocha. Uma de vazante e outra na baixa.

Está maré viva com mar calmo a descer muito e chega-se a sítios onde quase nunca se chega. Aranha comanda o barco na viagem de reconhecimento e leva na cabeça um boné que trouxe dos mares do Norte. É o mais novo dos três e tem uma estatura que lhe permite entrar em qualquer buraco". Zé Cinzento olha Aranha e queixa-se de "um quilinho a mais". Não fosse isso e, com aquela maré, arriscaria ir ao seu buraco. "É preciso preceito, entrar de arrecua", explica, usando como poucos a gramática dos homens do mar, sabendo olhar para as pedras e fazer logo um diagnóstico. "Estas estão arrilhadas", diz dos Baixios, um grupo de rochas antes de chegar à Galé, quando se vem de terra. E diz isso só de lhes ver a cor. "É preciso esperar mais um mês até haver mais percebes", estima. E arrilhar é verbo que vem de um substantivo, a arrilhada, utensílio que serve para arrancar os percebes da pedra. Aquela ficou sem eles.

Aranha vai ao leme, mas é Zé Cinzento quem o guia no nevoeiro. Aponta um sentido e Aranha segue-o. Também anda ao mar há 16 anos e suspeita de que o mestre não se engana. "Lá está ela", anuncia Zé Cinzento, e a pedra ganha forma na bruma. É tempo de atracar o barco, de saltar e no salto parecem homens com ventosas. Grudam-se na rocha vestidos de borracha negra da cabeça aos pés. Não fossem as luvas e, vistos do mar, não se distinguiriam dela. Aranha tem mãos amarelas. Fininho, cor-de-rosa. Só Zé Cinzento leva as mãos despidas. São os três Zés e executam na rocha uma coreografia de risco, sem nunca desviar os olhos do mar.

"Começou o perigo, tudo o que se fizer agora tem de ser feito com muito cuidado", disse Zé Cinzento quando saiu do porto. Esse cuidado agora é a multiplicar pelas ondas do mar. Por isso aproveitam o momento que separa a onda que passou da onda que vem para arrancar o marisco e quando não há mãos para dar vazão ao perigo, usa--se a boca para segurar a arrilhada. Os sacos vão-se enchendo e os pés dos percebeiros iluminam-se ao sol. O nevoeiro passou. O mar está "a dar percebes", diz José Lucas, o Zé Cinzento e "é sempre bom quando o mar dá. O pior são os dias de nada".


ImprimirImprimirEnviar por EmailEnviar por Email
PartilharPartilhar


Especiais

Recuar
Avançar
PUBLICIDADE


PATROCÍNIO
sondagem

Inquérito DN

Se tivesse possibilidades económicas compraria uma viagem ao espaço?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados




Desporto

Todas as notícias

Todas as notícias

Cartaz

PLANO GERAL

PLANO GERAL

Portugal

Facebook

Facebook

Televisão

Guia TV

Guia TV

Portugal

Twitter

Twitter




Diário de Notícias, 2009 © Todos os direitos reservados | Termos de Uso e Política de Privacidade | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos