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Jacinta Romão
Assim que "o vento marinho" começou a soprar, Manuel Venâncio "soube logo" que o fogo ia chegar às casas. "Sabia" porque naquela área da serra dos Candeeiros, na localidade de Bezerra, "as aragens" vêm quase sempre de sul. "Vento suão, muito quente, sabe?", afirma sem admitir dúvidas. Aos 72 anos, explicava com grande calma que se afastara da sua casa, num local onde as chamas já haviam consumido as matas mais próximas. Sobressaltou-se, mas felizmente a ameaça não se concretizou.
Em menos de meia hora estava a contecer tudo o que havia previsto devido à mudança na direcção do vento - o calcanhar de Aquiles dos corpos de bombeiros que desde o começo da tarde tentavam pôr cobro à devastação e não conseguiam. O fogo estava por controlar e "havia muito que fazer", admitia o comando da corporação.
Mais de 400 bombeiros, só do distrito de Leiria, 73 viaturas e dois meios aéreos ligeiros foram insuficientes para evitar a progressão ao longo de mais de dois mil hectares de terreno, quase todos em área protegida do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, no concelho de Porto de Mós.
Logo que as chamas chegaram, Bezerra não foi excepção em relação a todos os lugares e aldeias atingidos. Os moradores deitaram mão a tudo o que podiam para transportar água e molhavam os espaços em torno das casas. As mangueiras particulares circulavam pelo chão em simultâneo com as dos bombeiros, desafiando com água o ar que queimava.
Ao final do dia não tinha ardido uma habitação, garantiu o comando distrital no terreno, mas esteve muita gente, muitas casas e explorações agrícolas e pecuárias em risco.
Em Figueiredo, junto a Porto de Mós, os grunhidos das porcas criadeiras - mais de cem - fechadas numa pecuária, com um número incontável de leitões, atormentaram quem os ouviu até que foram retirados já com as árvores de um lado da exploração num braseiro. Estes escaparam. Em Covão da Bezerra, Manuel Anastácio, também já com mais de 70 anos, não soube o que aconteceu às suas vacas. "Podem ter conseguido escapar", desabafava o produtor. Uma esperança que alimentava com moradores de outras aldeias. Colocados à beira das estradas e das ruas mais largas das povoações, as pessoas aguardavam que não aconcesse o pior e gritavam, grande parte das mulheres chorando, pela presença dos bombeiros.
Bombeiros de luto
Este incêndio já tinha lavrado na quarta-feira quase todo o dia e os bombeiros julgaram que podiam controlá-lo. Os próprios comandantes admitiram que "o pessoal estava muito cansado", mesmo tendo recebido reforços à tarde. Era um esforço que vinha a ser feito desde o fim--de-semana anterior, porque os fogos não pararam em todo o distrito.
Na madrugada foram abalados pela notícia da morte de uma das operadoras de comunicações do CDOS de Leiria. Viviana Lourenço, 29 anos, deitou-se para descansar, o que não fazia havia mais de 36 horas. Foram encontrá-la já muito mal dentro da carrinha onde, finalmente, tinha conseguido adormecer. Terá morrido devido à inalação de fumos, segundo opinião médica, mas ontem ainda não era conhecido o resultado da autópsia. O corpo ficou em câmara ardente no quartel dos bombeiros do Bombarral e vai a enterrar hoje às 15 horas, no cemitério da Roliça.
Costa critica população
O ministro da Administração Interna, António Costa, e o secretário de Estado Ascenso Simões passaram grande parte do dia no cenário dos fogos. "Quando se olha para isto vê-se que as pessoas não cuidam da floresta, não a mantêm limpa", disse Costa, reforçando ser "preciso alterações de comportamento". Referia-se aos matos que continuam a rodear as habitações e à falta de faixas sem vegetação, exigidas por lei, adiantando que a GNR "tem levantado várias centenas de autos todos os meses".
Mas o fogo de ontem, à semelhança de outros - como o do Gerês -, lavrava numa área de parque natural. Ascenso Simões afirmou, por isso, que "é necessário acabar com teorias fundamentalistas para as áreas de alto valor ecológico", de forma a prevenir os incêndios. E afirmou que havia alguma dificuldade de diálogo com o Instituto de Conservação da Natureza, situação que ambos os governates afirmaram estar a tentar resolver.
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