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por
Filomena Naves
Pelos padrões actuais era horrivelmente lento e até um pouco estúpido, com um processador primitivo e uma memória diminuta. Tinha um ecrã monocromático, com letras a verde fosforescente em fundo negro, design anos 70 tardios, e era feito de peças genéricas: 12 quilos por junto. Só defeitos, à primeira vista.
Nada mais errado. O IBM 5150 PC, lançado comercialmente faz hoje 25 anos, não só foi um megassucesso de vendas completamente inédito, como acabou por revolucionar o mercado da informática, mais o das comunicações e da informação, e o resto do mundo com eles.
Com apenas um quarto de século, o primeiro computador pessoal a vingar é hoje uma relíquia de museu. Mas o mercado da informática e todos os que lhes estão associados só ganharam o ritmo alucinado que hoje domina, em que as novidades se sucedem quase à semana, por causa desse avoengo - e das suas características -, que há 25 anos chegou pela primeira vez às lojas.
PC, de 'personal computer'
Com 16 kilobytes, ou kapabytes (Kb) como se vulgarizou a designação de memória interna - 50 mil vezes menos do que qualquer PC corriqueiro tem agora -, mais 360 Kb de memória externa (as célebres disquetes hoje "falecidas") e um microprocessador com um único circuito integrado e 4,7 megas de velocidade (um caracol cansado, à vista dos actuais processadores de um giga), o PC da IBM custava a módica quantia de 1565 dólares. Algo como quatro mil dólares (pouco menos em euros) a preços de hoje, equivalente ao salário de um quadro médio europeu.
O seu baixo custo foi um dos factores decisivos para o sucesso. O outro segredo deste computador chamava-se compatibilidade e tinha por base, justamente, não haver segredo nenhum na tecnologia utilizada.
O resultado foi avassalador: em três meses a IBM já tinha vendido quatro mil PC. Quatro anos depois, esse número já ascendera a um milhão. Um sucesso sem paralelo. E ao chamar-lhe personal computer - a simplicidade das ideias geniais - a IBM cunhava também um nome para a história.
Os computadores pessoais não nasceram, no entanto, no dia 12 de Agosto de 1981. A sua génese começou muito antes, em 1971, quando a Intel criou o primeiro microchip (o Intel4004). Era ainda muito incipiente, conseguia apenas processar quatro bits à velocidade de dois megas, mas a sua evolução já vinha inscrita na própria tecnologia.
A grande novidade do microchip era a possibilidade de criação de microprocessadores num único cir-cuito integrado. Antes disso, os processadores tinham que ser feitos com várias placas, o que tornava os computadores gigantes, capazes de encher uma sala, e muito onerosos.
Depois da revolução do microchip, o Micral, criado por André Truong e lançado em 1972 pela empresa francesa R2E, pode ser considerado o primeiro computador pessoal, embora ainda faltassem quase dez anos para que a designação nascesse e a máquina se vulgarizasse enquanto tal.
"No final dos anos 70, princípio de 80, havia várias empresas a produzir computadores de secretária e antes do aparecimento do IBM 5150 foram lançados alguns no mercado, nomeadamente pela Apple, a Tandy e outras", lembra João Gabriel Silva, engenheiro informático e professor da Universidade de Coimbra que acompanhou de perto esta evolução.
Assistente na universidade, na época, João Gabriel foi um dos engenheiros que estiveram, aliás, na origem do PC português, o ENER 1000, que durante um ou dois anos ainda deu luta no mercado interno ao "computador maravilha" da IBM (ver texto na outra página).
Revolução tecnológica
Mas no final da década de 70, quando apareceram modelos como o Apple II, o TRS 80, da Tandy, ou ainda o ZX 80, da Sinclair, era talvez cedo de mais. "O mercado era ainda muito pequeno, estava muito atomizado e as máquinas eram muito caras", explica o informático da Universidade de Coimbra.
A própria IBM já tentara antes lançar um computador pessoal, mas o custo necessariamente elevado era um obstáculo ao seu sucesso comercial. Foi então que o gigante americano, que na época dominava cerca de 90% do mercado mundial da informática e da electrónica, mudou de estratégia e entregou nas mãos de um punhado dos seus criativos engenheiros o projecto de criação de um computador pessoal de baixo custo.
Foi a primeira vez que a IBM produziu algo e em que nenhum dos componentes era da sua lavra e, ironia da história, aquele foi um projecto controverso dentro da própria IBM. Mas os cépticos enganaram-se redondamente.
Juntando um microprocessador da Intel e um sistema operativo chamado Microsoft, que dois miúdos tinham acabado de lançar (Bill Gates, pois claro), os engenheiros da IBM produziram uma máquina aberta, que não tinha segredos tecnológicos.
Esta característica, somada ao baixo custo que a utilização de elementos genéricos permitia também, foi decisiva. Em poucos anos, uma série de velhas e novas empresas ligadas ao ramo conseguiram melhorar muito rapidamente a tecnologia. A Microsoft tornou-se um gigante e o seu patrão o homem mais rico do mundo. O resto é história conhecida.
Um quarto de século depois do aparecimento do primeiro PC, há mais de mil milhões de computadores pessoais em todo o mundo e a cada ano que passa vendem-se mais 230 milhões. E as coisas não vão certamente ficar por aqui.
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