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por
Vasco Graça Moura
vgm@mail.telepac..pt
Escritor
A Europa não está em condições de se defender eficazmente contra o terrorismo. A cooperação em matéria judiciária e penal vai sendo aperfeiçoada aos poucos e estreitou-se a colaboração entre as polícias dos Estados membros, mas o resultado ainda não é satisfatório. Nem sequer se chegou a uma definição comum de terrorismo. Quando muito, a Europa consegue prevenir algumas acções e lá vai identificando e capturando ex-post uns responsáveis pelos atentados de Madrid e de Londres, enquanto vigia alguns fundamentalismos que se desenvolvem no seu espaço.
Isto é positivo, mas não é suficiente. O terrorismo islâmico aposta na destruição da civilização ocidental a qualquer preço e em todos os seus aspectos (Estado de direito, democracia representativa, liberdade de pensamento e expressão, tolerância, igualdade entre os sexos, qualidade de vida, etc., etc.). Só abrandará nessas veleidades à medida que forem eliminados os seus focos de irradiação fora da Europa.
Isto implica opções políticas que a UE não é capaz de tomar, capacidades de intervenção militar de que ela não dispõe e uma ágil acção intensiva dos serviços de informação no terreno que não está ao seu alcance. É um truísmo que, na luta contra o terrorismo, os serviços secretos têm de funcionar como... serviços secretos, coisa que a esquerda não quer aceitar, escorada num conceito de transparência que alastrou bizarramente a esta matéria.
A esquerda mistura as situações normais da vida política, social e económica, em que se compreende e exige a transparência, e as situações excepcionais, como o caso do terrorismo, em que, ressalvados os direitos humanos, a transparência tomada à letra pode tornar-se no principal ingrediente da derrota.
A esquerda age com o único fim de atacar os EUA, Israel, a NATO e a CIA, esses perduráveis fantasmas anti-soviéticos da Guerra Fria. A pantomina sobre os voos da CIA, no Parlamento Europeu, é bem clara. Formou-se uma comissão de inquérito e decidiu-se, o que não tem precedentes, que houvesse um relatório "intercalar" antes do relatório final, de modo a criar duas oportunidades de estridente vociferação antiamericana em que se dará como provado o que nem sequer está indiciado. Trata-se da mesma gente que tem um passado torpe de coonestação da violência, do terrorismo e da violação sistemática dos direitos humanos. Para uma amostragem elucidativa, leia-se Le Terrorisme Intellectuel, de Jean Sévillia (Perrin, 2000).
Há intelectuais burgueses cujo fétido métier é o de se encarniçarem por todos os meios contra a própria burguesia que os engendrou e os sustenta. Invocando Lenine, Estaline, Mao, ou Pol Pot, a violência, o terror e a morte, defendidos em nome da "libertação" do homem, são uma das constantes mais doentias e mais mediaticamente amplificadas dessa intelligentsia burguesa, gente que, aliás, se contaria entre as primeiras vítimas se as suas ideias triunfassem ou se o terrorismo levasse a melhor.
Face ao terrorismo, o papel dos serviços secretos é crucial. Muito em especial o dos norte-americanos, já que os europeus não dispõem de capacidade para agir como seria preciso. Estão nesse caso os voos da CIA. Não há qualquer indício de torturas infligidas a suspeitos eventualmente assim transportados e só esse aspecto podia ser relevante. De resto, o respeito dos direitos humanos é assegurado pelos próprios mecanismos do Estado de direito, como se tem visto, a propósito de Abu Ghraib e de Guantánamo.
A guerra contra o terrorismo não é convencional. Desenvolve-se contra núcleos difusos, mal caracterizados, por vezes adormecidos, mas sempre de grande mobilidade numa rede internacionalmente desmultiplicada, fanatizada e disposta a tudo.
Isso explica a intervenção dos serviços secretos em moldes menos ortodoxos, como o de não se comunicar quem foi capturado e como, ou quem segue em determinado avião e porquê. Essa actuação ainda assim respeita as regras jurídicas fundamentais. O adversário, esse, é que não respeita regras nenhumas.
Os Estados membros da UE têm acordos com os EUA quanto a esses voos. São assuntos bilaterais que dizem respeito ao exercício de cada soberania e a mais ninguém. A UE não tem nada que meter o nariz. E, se tivesse, qualquer europeu normal havia de censurar os EUA, sim, mas por não terem capturado e transportado mais suspeitos, uma vez que se trata de uma guerra sem quartel que, sem a intervenção norte-americana, está perdida para a Europa.
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