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Uma ilha Selvagens

por

Lília Bernardes  

São onze horas de mar com ondulação forte. A partida do Funchal faz--se pelo cair da noite. A manhã nasce por entre as "vigias" e a bruma. O som das cagarras, aves marinhas protegidas que cruzam o céu em voos picados, faz parte do ambiente. Ali nidificam formando uma colónia de milhares de indivíduos. Quase extintas na década de 40 quando as ilhas eram privadas e alugadas a armadores para campanhas sazonais de caça à ave. Apanhavam-nas nos ninhos. Pequenas e rechonchudas. Homens quase nus subiam a escarpa e com um piparote na glote retiravam-lhes gotas de óleo mais tarde comercializadas para a indústria de cosméticos em Espanha. Das penas faziam-se almofadas. As tripas, isco para a pesca. O corpo, espalmado, secado ao sol, salgado, era enfiado em barricas e enviado para a Madeira. A cagarra seca fazia parte do menu de algumas populações da ilha.

Descobertas em 1483 por Diogo Gomes, mantiveram-se na posse de famílias portuguesas desde o século XVI até serem adquiridas pelo Estado no século XX, sendo classificadas como Reserva Natural da Ilhas Selvagens, galardoada com o Diploma Europeu do Conselho da Europa. A vigilância permanente iniciou-se em 1976. A sua missão é contribuir para a manutenção da biodiversidade, desde a protecção das áreas de nidificação de aves marinhas pouco comuns, à protecção de uma flora endémica e a manutenção dos stocks de pesca daquela área do Atlântico.

As Selvagens não são, nem nunca serão, um destino de férias. Ali não há restaurantes nem resorts. É a natureza ao vivo sem arrumação humana. Um campo de estudo no qual se têm desenvolvido inúmeros projectos de investigação nacionais e internacionais, procurado, sobretudo, por estudantes estagiários de diferentes universidades.

No planalto da Selvagem Grande, local onde foi erguido o marco geodésico ao tempo de Américo Tomás, oferece espaço suficiente para a aterragem do helicóptero. Mas é a subida da escarpa e a descida íngreme da mesma que puxam pela adrenalina. Se juntar as espécies de lagartixas gordas correndo ao sol tudo fica mais radical. O olhar alarga-se pelo oceano imenso. O navio ao largo. Sempre ao largo. Não há cais nem porto. O salto para o "zebro" que pula na crista até à enseada da baía das Cagarras. Um mar com fundo à vista para mergulhar de cabeça. Na casa dos vigias há café quente. E boa disposição. Há anos, foram eles que avisaram as entidades dos voos rasantes dos aviões militares espanhóis. A diplomacia portuguesa, ao tempo do ministro António Vitorino, tentou resolver a situação. As selvagens não são rochedos. São ilhas que vivem um silêncio de ondas calmas. Mais nada. A aventura não seria aventura se não tivesse uma lenda na história. Um tesouro escondido algures, ouro e pratas de piratas roubadas à catedral de Lima, no Peru.

Em mais de cinco séculos este arquipélago nunca foi colonizado apesar dos vestígios existentes de cercas, tentativas frustradas e abandonadas. Por isso, continuam Selvagens.


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