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por
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
O mesmo António Ramos que há uma semana foi reformado à força pelo ministério da Administração Interna teorizou em Maio no DN sobre as ligações entre o crime organizado e a imigração. A coisa deu polémica: o ainda presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia garantiu que a abertura das fronteiras fez disparar a criminalidade em Portugal (uma mentira), explicou que não é por acaso que em França e Espanha "correm com eles" (uma afirmação xenófoba) e aconselhou o Governo a não "deixar entrar tanta gente" (uma teoria de extrema-direita). Quando assim pensa um dos principais representantes da classe policial, percebe-se que não seja fácil para a PSP passear à noite pela Cova da Moura. Na altura, o ministro António Costa puxou - e bem - as orelhas ao senhor, e quando no final da semana passada ouvi a notícia de que Ramos e um seu colega de sindicato haviam sido mandados para casa pelo ministério pensei com os meus botões que apenas se perdia um par de polícias com vontade de arianizar a pátria e alguns comunicados em português aleijado. Santa ingenuidade. Afinal, o que o MAI utilizou como argumento para correr com António Ramos não foi a xenofobia encapotada mas uma gravíssima ofensa à pessoa do primeiro-ministro, através da seguinte frase: "Se o anterior primeiro-ministro [Durão Barroso] foi para Bruxelas, mais depressa este [José Sócrates] vai para o Quénia." Para os nossos sensíveis governantes, dizer que não queremos cá quenianos a infestar a pátria é chato mas ainda vá, agora dizer ao nosso primeiro "você vá mas é para o Quénia" (onde ele até já foi) é uma ofensa de lesa-majestade. Ver um Governo de esquerda correr com um sindicalista por abuso da liberdade de expressão teria a sua graça não fosse o facto de tal atitude ser sintomática do carácter de quem nos governa. A verdade é esta: o executivo de Sócrates é o mais autoritário e controlador desde os tempos do Estado Novo. E António Ramos, um cartaz gigante onde está escrito "bico calado", em letras garrafais.
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