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por
Luciano Amaral
Professor universitário
A propósito da actual guerra israelita, repetem-se as expressões de consternação pela violência e destruição que agora assolam o Líbano. Os que as produzem cabem em diversas categorias, desde os que nunca autorizam Israel a tomar quaisquer medidas de defesa, aos genuinamente horrorizados com o espectáculo terrível que todos os dias nos oferecem jornais e televisões. Mas a ambos cabe fazer uma pergunta, que inverte a que têm em mente. Em vez de sabermos para que serve a guerra, a pergunta mais correcta talvez seja: para que serve a paz? A frase anda a ser repetida há 200 anos, mas parece que nem toda a gente a compreendeu ainda muito bem: a guerra é a continuação da política por outros meios e, portanto, a opção pela paz em oposição à opção pela guerra não é uma mera escolha humanitária, mas uma escolha política. É evidente que todos preferimos a paz em abstracto. Mas a paz tem contextos e nem toda a paz é louvável. A paz sob um regime tirânico terá o seu valor, mas é certamente diferente da paz em liberdade.
Importa saber o que representa politicamente o imediato regresso da paz ao Líbano. Como é evidente, a paz não resolveria o problema que está na origem desta e de todas as guerras que precederam esta na região. Israel não respondeu militarmente da forma que fez por uma espécie de belicismo gratuito. Fê-lo porque desde 1993 adoptou uma postura de sistemática sinalização, ao mundo árabe e islâmico e ao mundo em geral, de que estava pronto a encontrar uma solução duradoura para a região, tendo a resposta contrária sido sempre um aumento da violência. Depois da assinatura dos acordos de Oslo em 1993 e da criação da Autoridade Palestiniana, seguiram-se alguns dos piores anos de violência entre israelitas e árabes. Depois da cimeira de Camp David, em 2000, em que Ehud Barak só não concedeu a Arafat o que não podia, e depois da retirada das tropas israelitas do Sul do Líbano, seguiu-se a chamada Segunda Intifada e a ocupação do Sul do Líbano pelo Hezbollah. Depois da retirada da faixa de Gaza, em 2005, e das promessas de retirada unilateral dos territórios ocupados, seguiu-se a vitória eleitoral do Hamas na Autoridade Palestiniana e o aumento dos ataques contra Israel. Foi agora, mas podia ter sido o ano passado ou poderia ser para o ano ou daqui a dois, mas Israel terá compreendido a futilidade destes esforços. Não admira que nem sequer a maior parte da esquerda israelita, normalmente grande promotora do chamado "processo de paz", esteja contra a acção militar no Líbano, apesar da sua evidente brutalidade.
Muita gente anda agora entusiasmada com os projectos de paz propostos pelos EUA, UE e ONU. Convém perceber o que não vai acontecer à sombra desses projectos. E o que não vai acontecer é a paz efectiva. Poderá talvez parar proximamente a ofensiva militar no Líbano, mas enquanto Israel tiver a sensação de que todos os passos no sentido da entrega dos territórios ocupados serão aproveitados para pôr em perigo a sua segurança, não desistirá de usar a violência quando sentir necessidade. Os mísseis do Hezbollah atingiram neste conflito distâncias de cerca de 50 km no interior do território israelita. Se a retirada da Cisjordânia desse origem a uma ocupação com material idêntico ao que existe no Líbano, a capital Telavive ficaria a pouco mais de uma dezena de quilómetros de distância, e portanto refém do mesmo tipo de ataques, assim como ficaria grande parte do resto do território israelita. Mais: o que Israel tornou claro com esta ofensiva, e o que o Hezbollah tornou claro com a sua resposta, é que os territórios ocupados não vão ser cedidos. Quer isto dizer que, qualquer paz que seja alcançada agora significará sempre o fim da outra eventual paz, a possivelmente resultante do tão incensado "processo de paz". A ofensiva militar teve já o mérito, para Israel, de mudar os termos da situação no terreno e os termos do debate internacional. O que toda a gente agora quer é a paz imediata no Líbano. Mas obtê-la significará o fim da outra, aquela que impediria no futuro a ocorrência de episódios como o que está actualmente em curso.
Tudo mudaria, evidentemente, se árabes, muçulmanos e seus amigos ocidentais reconhecessem inequivocamente e de uma vez por todas o direito de Israel a existir em paz e segurança. Mas como continuam a achar que o Estado de Israel corresponde a um episódio de colonização ocidental em terra cultural e historicamente árabe e islâmica, numa mistura intelectual onde a ignorância mal se distingue da má-fé, Israel vai continuar a ser brutal, os que entendem Israel vão continuar a ser tratados como malfeitores inauditos (a resvalar para o fascismo) e a palavra paz nunca deixará de ser uma mera batata grande na boca dos que não querem nem nunca quiseram pensar e aprender.
Querem paz? Não querem e não vão tê-la. A única coisa que vão ter é a perpetuação da guerra. Talvez não esta, mas a outra, a de sempre.
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