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Reportagem: Praia de Vieira Instantâneos da arte xávega

por Isabel Lucas

Leonardo Negrão (foto)  

Estendem-se na areia como roupa ao sol, metros e metros de rede, mas são poucos os que reparam naquele enxoval desbotado onde anda um homem à cata de buracos. Senta-se, abre a caixa de costura de onde tira a agulha que parece de brincar e uma linha mais grossa que corda de estendal. Cose. "Estou a alinhavári", ri, provocador, o especialista no remendar da rede, enquanto acaba com o buraco por onde há pouco entrou peixe. Tem barco próprio parado no areal. "Aquele, lá ao fundo, branco, mas não vai sair. Zanguei-me com a família e agora juntei-me a eles. A vida é assim", atira definitivo, fixo nos pontos que saem certeiros. Eles, os outros, andam ali a fazer a "amarração da rede", a levá-la para o barco, esticada, sem nós nem enleios. Puxam, atrapalham-se nas ordens, um dos homens pisa a malha larga e cai. "Se fosse à tarde não me admirava, mas a esta hora..." E riem. Falam uns com os outros acentuando a última sílaba, num falar cantado que substitui os 'és' pelos 'is', come sílabas, fecha vogais.

"Quanto mais pontos der, melhor foi a pescaria, mais peixe entrou", grita o pescador-costureiro numa cantilena, dando trela a quem o provoca. Têm 40, 50 anos, estão queimados do sol, mas por inteiro, sem as marcas deixadas pela roupa que nunca se despia e que, noutros tempos, separava no bronze quem trabalhava na praia dos que lá iam a banhos. São os pescadores da arte xávega, cerca de 60 homens que na Praia de Vieira mantêm viva uma tradição com mais de 200 anos que o turismo ajudou a preservar. De Abril a Outubro, barcos em forma de meia-lua lançavam no mar uma rede com cerca de 200 metros para, minutos depois, com a ajuda de uma junta de bois, a arrastarem para terra carregada de peixe. Era assim. Agora, os bois deram lugar a tractores e, em cada barco, o motor quase dispensa os remos.

"Para sul de Vieira já não se pesca assim", assegura Armando, calção de licra, óculos escuros de marca e fio grosso de ouro ao peito, orgulhoso do estatuto de artesão do mar e da quase exclusividade geográfica. Ainda não são dez horas e o barco já se faz ao mar pela terceira vez. Chama-se Maroto e é uma das cinco embarcações que compõem o folclore do areal inclinado da Praia de Vieira onde se perfilam, muito juntas, barracas de listas verdes, azuis e brancas. "Que o Maroto traga carapau", ouve-se pedir. "É que por aqui ninguém pega na sardinha. Ainda ontem foi um contentor dela para o lixo". E o Maroto faz-se ao mar, larga a rede a um quilómetro de distância. Leva quatro homens e nenhum está de acordo quanto ao lugar exacto onde deixar aquela que será uma parede para o peixe que lá entrar.

Uma viagem de um quarto de hora de resmungos sem amuos até que o tractor tire o barco da água e ajude os homens a enrolar a rede. E o que se segue no areal é uma coreografia há muito ensaiada, braçadas ritmadas com a ajuda de sons imperceptíveis, uma dança para o cada vez maior número de curiosos que se chegam atraídos pela imediatez daquela pesca em directo. É o espectáculo do resultado à vista em menos tempo do que o que separa o pequeno-almoço do almoço. Dois homens nadam em direcção à rede que se vai fechando, ajeitam-na para chegar à costa sem que o pescado se perca. "É carapau!", anunciam. E logo o eco: "É carapau. É carapau..."

E o carapau quando chega é sufocado por uma pequena multidão. "Deixem passar os cabazes!" São de plástico, que o tempo do vime também lá vai. Enchem-se de peixe vivo que segue em direcção à lota, onde é vendido num negócio sem intermediários nem facturas. Dois balcões de pedra cobertos de telha, mesmo por cima da praia. A venda é directa e tem a bênção das autoridades. "Um bacio, cinco euros", anuncia a mulher de um pescador, exibindo um pequeno alguidar de plástico como medida de compra e venda. "Ninguém quer do pequenino?"; "Ah, é do proibido!", lamenta quem não chegou a ser cliente e esbanja nas exclamações. "O peixe, é fresco?", pergunta uma mulher a pensar no almoço. "Não, minha senhora, tem quinze dias. Não vê que 'tá a saltari", canta já o pescador de olhos noutra rede que está a chegar à praia.


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