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opiniao

Tudo a mudar

por

Pedro Rolo Duarte

Jornalista

pedro.roloduarte@gmail.com

 

Nunca fui um bom espectador de televisão, muito por causa dos horários irregulares que sempre tive. Na verdade, exceptuando a informação - problema que os canais de notícias resolveram e que já não me obriga a parar em frente a um televisor às oito da noite -, nunca consegui seguir uma novela ou uma série e raramente revi filmes em televisão. Para mim, portanto, o aparecimento do vídeo foi extraordinário: permitiu-me gravar e ver programas ao ritmo dos meus dias e horários. Já com a música foi diferente: como nem sempre me agradavam as escolhas que se faziam na rádio, perdia horas em casa a gravar cassetes para ter no carro. O sistema não era perfeito, mas a década da cassete já foi para mim uma revolução. Imagine-se, por isso, a minha rendição ao DVD, ao I-Pod, ao computador e à Net.

Hoje, estou à beira de comandar efectivamente a minha vida: em segundos estabeleço as playlists com a música que oiço e até já importo programas de rádio para o I-Pod que ouvirei quando me der jeito.

No momento em que escrevo, interrompo a terceira série de 24, a fabulosa saga de Jack Bauer, para começar a ver a primeira vaga de Sete Palmos de Terra. Os meus amigos fanáticos da série convenceram-me e aí vou até ao mundo dos Fishers. Tudo em DVD, na verdade nem sei em que canal de TV passam estes programas. Gato Fedorento? Só vi no computador e em DVD. Precisei aqui há dias da versão Palma's Gang para a canção Ai, Portugal, comprei-a no I-Tunes por 99 cêntimos.

Sou viciado em jornais. Não tenciono deixar esse saudável hábito. Mas já não entro em crise profunda quando não encontro o DN, ou o Expresso, ou o Público. Passo pela Net, vejo o que perdi, controlo os danos sem stress.

Continuo a ir ao cinema - mas também deixei de entrar em delírio quando um filme sai de cartaz. O DVD chega logo a seguir, e o sistema de home cinema, sem substituir o prazer da sala grande, acaba por anular o dramatismo da perda.

Penso em tudo isto numa noite de Verão e tenho a certeza de um único facto: todo o sentido que têm hoje os clássicos meios de comunicação e o seu modo de funcionar - imprensa, rádio, TV - está definitivamente perdido. Dado algum autismo que persiste no meio, parece que anda tudo tranquilo. Mas é irreversível. Não vai sobrar nada tal e qual está ou existe. Cumpriu-se o meu sonho de autonomia - veremos que outros sonhos vamos ter de criar.


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