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Pedro Lomba
pedro.lomba@clix.pt
Dizem que há a esquerda e a direita, os liberais e os conservadores, os patrões e os trabalhadores, milhentas outras diferenças. Certo. Mas sabendo que estas divisões existem e pesam, eu acho que a verdadeira distinção, a grande clivagem ideológica, moral, emocional e occipital está entre as pessoas que condenaram Zidane por se ter despedido do Mundial depois de aplicar uma cabeçada num italiano e aqueles que não só aplaudiram o gesto como passaram a gostar ainda mais do francês. Num impulso trivial pode esconder-se toda uma transcendência de significados. São dois mundos, dois tipos de pessoas, duas mundividências inconciliáveis. Querem perceber porque não há nem pode haver harmonia possível na espécie humana? Eis a resposta. Esta fractura essencial não surge porque, para uns, Zidane respondeu com violência a provocações que devia ter ignorado enquanto, para outros, ele agiu naturalmente ao agredir quem também o agrediu. Na verdade, eu não estou sequer preocupado em analisar o que fez Zidane, nem se a violência contra a violência não é no fundo lícita. Isso toda a gente sabe. Mas há uma dimensão moral na cabeçada de Zidane que parece mais interessante: é possível que alguém como ele, contra o que as circunstâncias aconselhavam, num jogo em que se despedia e em que o canonizariam como um dos melhores futebolistas de sempre, tenha perdido a cabeça e acabe depois numa criatura ainda mais extraordinária e apreciada do que já era? É possível que a nossa admiração por uma pessoa aumente, mesmo se em função de uma espécie de moral objectiva essa pessoa tenha agido mal? É possível que o exagero, a irracionalidade, o erro sejam infinitamente mais sedutores do que a moderação, a racionalidade, a verdade?
Dois mil anos de civilização, cristianismo, imperativos categóricos, estóicos e moralistas não nos afastaram da realidade primitiva: nós não aspiramos verdadeiramente a uma existência comezinha, moderada, racional, repleta de regras e decisões autojustificáveis. O nosso objectivo é o drama. Porquê?, perguntaram os jornais europeus a Zidane depois do jogo com a Itália. Porque sim.
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