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por
Marina Almeida Pedro Saraiva
Tem sempre histórias para contar?
Repare: não há localidade onde não existam aspectos de pormenor que nunca foram contados. Por História entende-se em geral uma linha evolutiva que só apanha os grandes acontecimentos, é como uma espécie de horizonte recortado pelos cimos das montanhas. Mas há sempre pequeníssimos acontecimentos, situações, muitas das quais nunca se deu por elas, e eu prefiro ir para as coisas que nunca foram ditas. Há muitas coisas que aconteceram e ficaram nas gavetas do silêncio. Procuro resgatar esses acontecimentos.
Mas de alguma forma vai refazendo a História?
Com certeza. A História nunca está acabada. Claro que estas histórias têm conseguido reconstruir uma visão panorâmica da história de Portugal. É isso que explica que o livro onde eu resumo todas essas coisas, que é a História Concisa de Portugal, já tenha nesta altura edições em praticamente todo o mundo e aqui em Portugal vai na 24.ª edição, com cerca de 250 mil exemplares.
Antes de ir para o terreno, mergulha na sua biblioteca? O improviso dos seus programas dá muito trabalho...
Cada programa é precedido de uma pesquisa muito laboriosa: leio tudo, peço informações para formar eu próprio o meu juízo. Dizem "ele improvisa completamente". É o improviso das palavras, mas esse improviso tem na raiz muitas horas de investigação. Se não fosse assim, seriam puros prospectos turísticos. Eu creio que os textos escritos e lidos não têm aquela comunicação, e por isso não escrevo os textos. Já levo esboçadas as coisas que hei-de dizer. Agora, cada programa tem a duração de 25 minutos e não há terra nenhuma cujo passado se possa resumir em tão pouco tempo. Os naturais das terras ficam sempre desapontados, é impossível. Fico muitas vezes eu próprio desgostoso por não poder dizer mais...
Os 25 minutos são uma opção sua ou alguma imposição?
Não. É de facto o tempo estabelecido e que tem a minha inteira concordância porque a cadência dos programas é essencial para fixar o interesse do público. Eu acho mesmo que 25 minutos já é muito tempo. Na Pré-História mede-se tudo em séculos, na Idade Média já é por décadas. No nosso tempo, na nossa vida, é por anos, e na televisão o tempo mede-se por segundos...
Li que chama aos seus programas programas de indagação...
Sim, é verdade.
E tem tido respostas?
Ah sim! Há muitas coisas que permanecem por decifrar, mas tenho aprendido mais nas visitas às aldeias que nas sessões das academias.
Há mais de 30 anos que está presente em televisão, regularmente, com vários programas...
O Tempo e a Alma (1971) foi o primeiro programa, sobre as origens de Portugal. Repare como é curioso que um tema tão especializado tenha mobilizado o país. O país quer saber as suas origens, do mesmo modo que uma pessoa gosta de saber quem foram os seus antepassados. Pois tratava-se de encontrar os tetravós deste mundo que nós agora somos. E teve um enorme êxito... Já lá vão 35 anos, são uma pequena parte da minha vida. Parti para essa peregrinação dos pequenos ecrãs com um enorme lastro, tinha sido professor de História durante outros 35, sou professor desde os 20 anos.
Já tem 87 anos. Conhece alguém que possa ser seu sucessor?
Toda a gente! Não fui ungido por Deus, sou igual a qualquer pessoa. Digamos que sou pertinaz, sou capaz de demorar muito tempo debruçado sobre a mesma coisa. Mas há hoje excelentes autores de história e julgo que quando desaparecer não faço falta nenhuma. Eu sou apenas uma pessoa que dedicou grande parte da sua vida aos mesmos problemas. Estes livros, está a ver muitos milhares, foram coleccionados um a um, ao todo são 30 mil. Já vê que isto representa uma grande obsessão.
José Hermano Saraiva
Historiador
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