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Tragédia que londrinos preferem não recordar

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Hugo Bordeira Londres  

Quis o destino que os dias 6 e 7 de Julho ficassem gravados na memória dos londrinos como momentos inseparáveis de euforia e tragédia. Há um ano, os britânicos ainda mal tinham recuperado do entusiasmo da véspera, gerado pela atribuição dos Jogos Olímpicos de 2012 a Londres, quando quatro bombistas suicidas espalharam o terror.

Jaqueline Head, de 26 anos, é uma jornalista australiana da BBC a viver em Londres há três anos. Ainda hoje tem dificuldade em recordar aquelas horas negras e evita entrar em detalhes sobre o momento em que o mundo parou. "Estava em King's Cross, na linha de Piccadilly, quando senti uma explosão. Não vi nada, só senti medo", afirma ao DN. Apesar de ter escapado sem ferimentos de maior. "Fiquei com receio de entrar nos transportes públicos e quando o metro está cheio sofro de claustrofobia."

Ontem, ao final da manhã, era difícil acreditar que, em Tavistock Square, um autocarro explodiu há um ano. Não há quaisquer sinais da tragédia e só o aparato gerado pela presença de uma cadeia de televisão norte-americana interrompia a tranquilidade dos escritórios envolventes. Ainda assim, é fácil perceber o trauma dos londrinos que frequentam estas bandas. Um bom exemplo são os empregados da Woburn House, um centro de conferências situado a dois passos do local onde o quarto suicida detonou a bomba. Há dez dias, antecipando o interesse dos media, o assessor de imprensa realizou uma sondagem interna para saber a receptividade dos funcionários para comentar os momentos fatídicos: nenhum se mostrou disponível.

No outro lado da cidade, nas imediações da mesquita de Finsbury Park, reina a calma numa manhã de chuva. Esta é uma zona habitada por muitos muçulmanos, onde o clérigo radical Abu Hamza (condenado a sete anos de prisão) incitava à violência e pregava contra o Ocidente.

A polícia acredita que pelo menos três dos bombistas eram ouvintes assíduos daquelas prédicas. Ali perto, Tariq [nome fictício] veste o tradicional traje muçulmano, com uma túnica e calças claras. Quando interpelado para falar sobre os atentados, este comerciante sexagenário, de ascendência paquistanesa, diz logo que não quer ser identificado e é com relutância que acede a falar. "Não conhecia os rapazes porque raramente vou a esta mesquita, mas sei que o que eles fizeram não foi contra o povo britânico, mas sim contra a política seguida pelo Governo."

Farhad Merzai, 25 anos, com ascendência iraniana, vive em Hampstead e trabalha na City, numa empresa de informática. "Estou há 16 anos em Londres e não me considero religioso porque sigo apenas os preceitos básicos do Islão. Estou completamente integrado e, mesmo depois dos atentados, não me sinto discriminado por ser muçulmano. Mas tenho a ideia de que alguns preferem viver distantes do modo de vida dos britânicos, fiéis apenas às suas tradições e à sua cultura."

Os atentados permanecem bem vivos na memória dos londrinos e para muitos não é fácil recordá-los. É certo que viveram décadas na mira dos atentados do IRA (Exército Republicano Irlandês), mas nunca tinham testemunhado ataques suicidas com um saldo tão devastador: 52 mortos e 700 feridos.

Segundo explicou ao DN um porta-voz da Autoridade de Compensação às Vítimas de Crimes Violentos, "até agora recebemos 528 candidaturas de pessoas que pediram indemnizações relacionadas com os ataques suicidas. Já apresentámos 431 propostas de compensação pelos danos físicos e psicológicos com um valor de 2,45 milhões de libras, sendo que até ao momento foram pagos um total de 2,3 milhões".


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