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A demografia: móbil de crescimento

por

Cristina Casalinho

Economista-chefe do BPI  

No passado, a demografia era uma condicionante frequentemente invocada para justificar o baixo crescimento económico das economias asiáticas. Efectivamente, o florescimento económico da China e da Índia é devedor da estabilização demográfica, condição básica para o desenvolvimento. Em África, esta condição primordial ainda não se mate- rializou, porque a população ainda constitui um obstáculo ao crescimento, por via de elevadas taxas de natalidade e fertilidade conjugadas com avassaladoras taxas de mortalidade e de prevalência do VIH. Na Europa, a demografia readquiriu relevância, não tanto associada ao desenvolvimento económico, mas por inerência da discussão em torno da sobrevivência a prazo da Segurança Social.

Na Europa, a temática da demografia tem escapado à problemática do crescimento, embora a importância desta variável seja tão prevalecente como noutras regiões. Na realidade, quando se comparam taxas de crescimento dentro da área do euro ou com os EUA, normalmente negligencia-se esta vertente. Porém, os crescimentos impressionantes observados na Irlanda, Espanha ou EUA não escapam à lupa demográfica, porquanto o crescimento do PIB per capita nos últimos anos nestes países cai para cerca de 2% contra valores de variação real do PIB superiores a 3%. Nos EUA, observa--se significativo crescimento demográfico natural, por via do fluxo imigratório, que sustenta rit- mos de acréscimo de procura agregada elevados. Na Irlanda, a taxa de crescimento natural da população é de cerca do dobro da média da UE-12, enquanto em Espanha a população cresceu aproximadamente 10% nos últimos cinco anos. Estes factores ajudam a suportar o dinamismo do mercado imobiliário e asseguram incremento fisiológico do consumo privado. Isolando a dinâmica populacional, os reduzidos crescimentos de França, Alemanha, Itália e Portugal adquirem outra perspectiva. Desmistificar o reduzido crescimento económico destas economias, invocando argumentos demográficos, não colide com o reconhecimento das dificuldades de sustentabilidade de crescimento a prazo, mas visa, somente, reorientar o discurso do problema económico para além da esfera das reformas estritamente de mercado, envolvendo também reflexão sobre as políticas de imigração e natalidade. Neste caso, realce-se o facto de, em Portugal e França, se ter quebrado a tendência de queda da taxa de fertilidade, sinal encorajador para o futuro do crescimento económico e da sustentabilidade da Segurança Social destas economias. C


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