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António Pedro Pereira Marienfeld
Com a mesma aparente tranquilidade com que na véspera se tornou o guarda-redes recordista de defesas num desempate de penalties de um mundial, Ricardo atravessou a multidão de adeptos que acorreu ao treino da selecção para entrar na sala de imprensa. Um aplauso de muitos dos repórteres presentes, um sorriso óbvio orgulho nos lábios e várias ideias e descodificações para os comportamentos durante o momento mais tenso do jogo em que Portugal eliminou a Inglaterra. Mais uma vez, com as mãos de Ricardo, agora com luvas, no centro das decisões.
A imprensa estrangeira centrou-se em Ricardo e em Scolari. O primeiro rematou os elogios sobre o segundo. "Já falamos tão bem dele que qualquer dia terá de andar de babete". Um exemplo: "Além de ser dos melhores, tem carácter e nunca duvidei que ele não se comprometesse com outra equipa estando connosco. Ainda bem que a Inglaterra escolheu nessa altura, porque, se calhar, o mister continuará connosco".
Mas a conversa centrou-se mais no jogador do Sporting - ao lado, Paulo Santos apenas sancionava com a cabeça as ideias do guarda- -redes titular, entre elogios mútuos de entreajuda e camaradagem. Mas a noite anterior ainda mal tinha passado. As luvas calçadas, as costas voltadas para os remates dos companheiros. Ainda sobrava muito colorido de Gelsenkirchen.
"Não lhe vou chamar superstição, mas foi das poucas coisas que fiz igual ao europeu [Portugal também bateu a Inglaterra nas grandes penalidades] e virei-me de costas para ver um jovem português que estava no meio de tantas camisolas brancas e vermelhas da Inglaterra desesperado para levantar o cachecol. Foi com o olhar nele, a ver se chorava ou se ria, que me concentrei nos penalties", riu-se Ricardo. "Há quem utilize outras técnicas para desconcentrar. Eu tenho é de me preocupar comigo e com quem vai marcar e tentar ler nos olhos e na alma de quem vai bater. Tenho de tentar prever o que vai fazer e tentar enganá-lo nesse aspecto. Assim, senti que tinha muitas condições para defender, não a certeza", prosseguiu. "O Luís Figo disse-me que estava tranquilo, que eu dois apanhava sempre. No fim, disse-lhe que dois eram para ele e um era para mim", contou, elogiando ainda Fernando Brassard pelo trabalho que o treinador de guarda-redes tem feito neste aspecto.
Admitindo que a única vantagem psicológica sobre os ingleses foi a dos jogadores portugueses terem sido "melhores" do que os ingleses, o número 1 da selecção explicou porque nem pensou em tirar as luvas (como fizera há dois anos). "Porque apanhei quase todos. Da outra vez foi instintivo, não estava a conseguir pegar nenhum e tive de fazer alguma coisa. Vi nos olhos dos ingleses que não estavam preparados para bater penalties e a baliza estava a encolher. A mim só me cabia tentar prolongar mais esse sofrimento por parte deles. Consegui e foi bom para nós", explicou.
A noite de glória do guarda-redes não ficou ensombrada pelas perguntas menos cómodas. De Vítor Baía, por exemplo ("isso é passado"), e de ter ficado fora da lista de cinco melhores guarda-redes da FIFA. "Não sou o único. Era bonito, mas se olharmos para a felicidade dos portugueses é uma gota de água na tempestade".
E nem se impressionou com a incidência de mensagens de felicitações que recebeu após o jogo. "Para já deitámo-nos tarde porque estivemos todos juntos a festejar. Depois, as únicas que leio são as daquelas pessoas que me entopem o telefone quando estou num momento menos bom. São as únicas que leio, o resto apago. Todos nós aprendemos muitas coisas na vida e, como eu nunca vou desejar mal a ninguém, prefiro contar com aqueles com os quais posso contar nas horas más da vida e não só nas boas".
Ricardo fintou ainda a insistência da imprensa inglesa em que Cristiano Ronaldo teria encorajado a expulsão de Rooney. "Há sempre quem tente encontrar um bode expiatório, mas o árbitro agiu pelo que viu, expulsou-o e nada mais".
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