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por
Jornalista fernanda.m.cancio@dn.pt
Fernanda Câncio
Isto já vai sendo um hábito. Não, não me estou a referir aos cartões amarelos e vermelhos e às expulsões: segundo ouvi dizer, isso até foi excepcional, mesmo se eu ainda sou do tempo (há quatro anos, não foi?) em que um membro da nossa selecção achava que podia dar murros nos abdominais dos árbitros quando eles não "apitavam" - ou, no caso, não o "descartavam" - como ele achava bem. Nem sequer me refiro ao facto de ser um clássico do futebolês nacional (e se calhar não só) culpar o árbitro do que corre mal e termos assim já assegurada uma imputação de injustiça e perseguição caso a turma de Scolari claudique face à Inglaterra. Não: é que eu, mais uma vez, não vi o jogo - esse é que é o hábito cada vez mais habitual.
Como o tempo nem estava nada de especial, desta vez a desculpa não foi a praia, nem a piscina, nem a esplanada, nem sequer a varanda. Imaginem: desta vez estive a trabalhar. É possível que tenha sido a única pessoa do país que se pode gabar disso - mas tenho testemunhas e provas documentais, em caso de dúvida. Sim, caros leitores (se é que ainda resta algum): há quem, mesmo durante aquela montanha russa de pontapés, cotoveladas e mãos na bola, mais remates à trave e demais demonstrações de desportivismo e fair play, à mistura com os urros da malta aqui da redacção, estivessea tra-ba-lhar. É imperdoável, bem sei, é até talvez obsceno. Mas quem é que está livre de um mau passo?
Reparem que sei do que falo. Passei o fim-de- -semana em Santa Comba Dão, a entrevistar pessoas que conviveram décadas com um homem franzino e prestável, daqueles de quem se diz que são "amigos do seu amigo" e "não partem um prato", a quem nada faltava para ser aquilo a que se costuma chamar "um pilar da comunidade". Um ex-polícia defensor da ética do trabalho que construiu o primeiro andar da sua moradia com as próprias mãos, que plantava vinhas e roseiras e semeava alfaces e criava coelhos e matava porcos e foi eleito pelo PSD para a junta de freguesia e era membro da direcção da casa do Benfica local e que assestou na parede da sua casa o seu mote de vida: "Se tens inveja do meu viver, trabalha, malandro." Que acreditava na trilogia deus-pátria-autoridade, venerava Salazar e a quem só talvez faltasse o fado para fazer o pleno dos três efes, com o seu amor ao futebol e a sua romaria pedestre a Fátima quatro dias depois de ter - alegadamente - asfixiado a sua terceira vítima.
Se fosse um tipo de cabelo desgrenhado e vestido de cabedal, que fumava charros e coleccionava tatuagens e piercings e frequentava antros de libertinagem enquanto vivia de expedientes e do rendimento social de inserção, é de crer que não se assistisse na sua terra a uma tão devastadora onda de perplexidade e que não se encontrasse necessidade de invocar "o mistério que é o homem" para apaziguar a angústia das almas. Mas imaginar assim o companheiro das patuscadas, dos tremoços e das bujecas e do pendão do glorioso como tenebroso serial killer é coisa do outro mundo. A culpa há-de estar alhures - porque crer que é dele é acreditar que podia ser nossa. E a isso, no resto como no futebol, nunca havemos de nos habituar. Fernanda Câncio é grande repórter do DN e suspeita ser do Benfica. Escreve à terça no Diário do Mundial do DN
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