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por
João Miguel Tavares
Ofutebol é o único desporto do mundo que não precisa de ser bem jogado para ser bom. Provo a tese em 16 caracteres: Portugal-Holanda. De futebol propriamente dito houve um golo, uma bola na trave, seis ou sete oportunidades. Nada de particularmente memorável. Na maior parte do tempo o jogo esteve interrompido, com jogadores ao pontapé, à cabeçada, a rebolarem pelo chão, a empurrarem-se, a insultarem-se em várias línguas e a serem expulsos. Uma tristeza, é certo. Mas a mais fascinante tristeza vista até ao momento no Mundial 2006.
O público acabou por trocar a evolução do marcador pela sucessão das expulsões, o que sendo rebuscado é igualmente emocionante: 1-0 para a Holanda após Costinha ter cortado com a mão uma bola a meio campo. 1-1 para Portugal depois de Figo ter transformado um pequeno toque na cara num uppercut de direita. 2-1 para a Holanda após Deco ter agarrado a bola com a mão para a levar para casa. 2-2 para Portugal já no período de descontos, após um holandês ter tido a amabilidade de rasteirar Simão. O marcador mexeu-se pouco mas cartões foram 20 - um novo recorde em mundiais -, com o árbitro a assegurar o espectáculo.
O desgraçado do homem do apito - Valentin Ivanov, de sua graça - levou pancada de toda a gente no final do jogo, incluindo do todo poderoso Joseph Blatter, que achou por bem açoitá-lo em directo. Mas, com a possível excepção do segundo cartão amarelo mostrado a Deco, não percebi o que pudesse fazer de muito diferente, para além de expulsar mais dois ou três jogadores de cada uma das equipas (incluindo Figo). Ivanov não arbitrou bem? Pois não: se tivesse aplicado os cartões com rigor teutónico o jogo tinha acabado em 6-6, em vez de 9-9. Ou seja, não acabava.
A falta de fair play da Holanda atingiu níveis olímpicos numa reposição de bola que teve o mérito de pôr o estádio inteiro a torcer por Portugal, mas a verdade é que a selecção nacional está um bocadinho desvairada no capítulo disciplinar. O povo adora dizer que foi roubado pelo árbitro, e chorar em cima das faltas não marcadas, mas o que tenho visto até agora é muita generosidade na amostragem dos cartões.
Convém recordar que no jogo contra o México Miguel só ficou em campo por milagre da Nossa Senhora de Scolari e que Nuno Valente aplicou um golpe a um adversário que eu só tinha visto nas fitas gloriosas de Bruce Lee. Agora, com a Holanda, o caso repetiu-se e agravou-se. Houve não só pancadaria da grossa como alguma falta de irrigação cerebral.
A expulsão de Costinha, então, nasce de uma burrice mais comprida que o Muro de Berlim. O jogador português tem fama de estratego da equipa e de possuir uma inteligência fina, mas ela morreu de frio na sua passagem por Moscovo. Aliás, tanta argúcia sempre me pareceu incompatível com o facto de ter um Porsche amarelo. Portugal, é verdade, fez um grande jogo. Mas podia ter corrido muito menos se tivesse pensado um pouco mais.
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