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Dentro dos prédios estão os guardiões dos jardins

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Kátia Catulo Nuno Fox  

Todos lhe reconhecem o mérito: se não fosse D. Florentina, os residentes da Rua Eugénio de Castro Rodrigues, em Lisboa, estariam até hoje a enxotar ratazanas das suas casas e a suportar o cheiro fétido de uma lixeira que, durante décadas, tomou conta de um logradouro público no Bairro de Alvalade. "Ela foi a principal responsável por termos o jardim ", diz Agustina Luz, que ali mora desde menina.

Agora, em vez de construções abarracadas, há um chafariz caiado de branco e, no lugar de um poço de água estagnada, uma cerca de madeira para proteger meia dúzia de girassóis. Onde antes existiu uma selva de ervas daninhas estão canteiros de lírios, dálias, amores-perfeitos ou begónias. "D. Florentina cansou-se de viver ao lado de tanta porcaria e começou a desbravar este mato", recorda Francisco Ferreira, que, em conjunto com Helena e Fernando, faz a manutenção do espaço verde.

Quase todos se deixaram contagiar pela genica da vizinha e ajudaram na reflorestação. D. Mimi deu dinheiro para comprar algumas árvores, Helena e Fátima trouxeram sementes para cultivar flores, Fernando montou o sistema de rega e Francisco construiu caminhos feitos em pedra e vedações de troncos de madeira. "Mas foi D. Florentina que fez a maior parte do trabalho", avisa Francisco, de 81 anos.

Em Fevereiro de 2002, os habitantes de Alvalade inauguraram o Jardim dos Moradores, nome com que foi baptizado o logradouro público. Só que, entretanto, Florentina deixou o bairro e foi viver para a Ericeira. E, desde essa altura, nunca mais houve arraial por altura dos santos populares, nem festas de Natal, nem lanches para os miúdos da rua. "Se não for ela, mais ninguém tem tempo ou paciência para organizar convívios entre moradores", confessa Helena Crino, de 79 anos.

Fazer a manutenção do jardim já é um trabalho que ocupa "bastante tempo" aos dois moradores. Apesar de contarem com o auxílio da Junta de Freguesia de São João de Brito, que uma vez por semana faz a limpeza do espaço, há outras tarefas que precisam de ser feitas. "Arrancar as ervas daninhas, cortar e limpar galhos secos e regar plantas e flores todos os dias", esclarece Francisco Ferreira.

Isto sem contar com o facto de ser preciso vigiar em permanência o logradouro. Função que Helena desempenha com desembaraço: "Estou sempre a ralhar com a rapaziada quando maltratam o jardim." Só com muito esforço, esclarecem os dois residentes, o espaço verde está limpo durante todo o ano. A Câmara Municipal de Lisboa pouco contribui para o sucesso do Jardim dos Moradores. "Apenas recolhem o lixo que nós limpamos", explica Francisco.


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