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por
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Ao longo do ano lectivo que agora termina, realizou-se, na Universidade de Coimbra, por iniciativa da Reitoria e da Biblioteca Geral, uma série de debates sobre a problemática levantada por dez livros determinantes na História da Humanidade.
A escolha desses Dez Livros que Abalaram o Mundo resultou de um inquérito a professores das diferentes faculdades da Universidade. Por ordem de votação, foi este o resultado: A Origem das Espécies, de Charles Darwin; Bíblia; A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud; O Capital, de Karl Marx; D. Quixote, de Miguel de Cervantes; Princípios Matemáticos de Filosofia Natural, de Isaac Newton; Odisseia, de Homero; A Riqueza das Nações, de Adam Smith; Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo, de Galileu Galilei; Teoria da Relatividade, de Albert Einstein.
Mas cá está! Não se aninha nesta selecção o perigo de esquecer tantos livros que foram também determinantes? E, sobretudo, não foram postos de lado livros de influência mundial, com origem no Oriente (aliás, por vezes, esquece-se que a Bíblia nasceu no Médio Oriente, com raízes também na Mesopotâmia)? Como se pode ignorar o Alcorão, que influencia hoje directamente mais de 1200 milhões de seres humanos, e outros?
Sempre atento aos grandes debates culturais e nunca esquecendo o Oriente, João Gouveia Monteiro, pró-reitor da Cultura da Universidade de Coimbra, encerrou o ciclo de debates com uma sessão dedicada à promoção do conhecimento e do diálogo entre o Ocidente e o Oriente - Virados a Oriente: Os Livros que Ficaram por Dizer. Nela, foram apresentados o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, Gilgamesh, a mais antiga epopeia da Humanidade, originária da Mesopotâmia e onde já aparece o Dilúvio universal, o Ramâyâna e a Baghavad-Gitâ, representando a Índia, as Máximas, de Confúcio (China), o Sermão de Benares, de Gautama, o Buda. A assistência acorreu, muito numerosa e atentíssima, à Biblioteca Joanina.
Lembrei-me então de quando passei pela China. Na viagem de avião entre Pequim e Cantão, na China Airlines, lá estava aquela revista que as companhias aéreas colocam à disposição dos passageiros sobretudo para informarem sobre os destinos dos seus aviões e as rotas dos seus voos. Aí, ao olhar para o mapa, tive o meu pequeno choque: a quem está habituado a ver o mapa-múndi com o Mediterrâneo no centro apresentava-se ele agora tendo como centro a China - não se considerou a China sempre o Império do Meio? Por outro lado, no Extremo Oriente, lendo os jornais, podia constatar que os sumos interesses do mundo eram outros: precisamente os do Oriente e não os do Ocidente.
Afinal, todos nos consideramos no centro do mundo! Não será isso inevitável? Não é sempre de facto a partir de nós que tudo vemos? Somos inexoravelmente uma perspectiva sobre o mundo. O mal começa quando pensamos que somos não só o centro, mas o mundo pura e simplesmente.
Agora, há mesmo uma edição do mapa- -múndi, impressa na Austrália, em que o planisfério aparece invertido. E porque não? A imagem que temos do globo terrestre deve-se aos cartógrafos do Norte que a impuseram ao mundo, devido a determinados contextos históricos: o triunfo da Europa com os Descobrimentos e a sua visão global do planeta. Trata--se, no entanto, apenas de uma tentativa de representação, pois como se coloca a Terra esférica num plano?
Referindo-se a um mapa idêntico, editado na Nova Zelândia, com o Sul para cima e um título reivindicativo: Já Não Antípodas!, escreve-se justamente no Atlas de História Universal, sob a direcção de José-Ramón Juliá, que "contemplar o mundo 'de pernas para o ar' abre novas perspectivas e ajuda a compreender a História".
Afinal, um mapa é só uma representação do mundo, mas, nessa minha pequena experiência a bordo de um avião das linhas aéreas chinesas, fui surpreendido pela força da sua influência mental e histórica.
Por causa da globalização, seremos cada vez mais uma sociedade-mundo, com sociedades cada vez mais multiculturais e multirreligiosas, num mundo policêntrico e multipolar. Para evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo das culturas e das religiões - diálogo intercultural e inter-religioso. Esse diálogo tem dois pressupostos fundamentais: o respeito pela igual dignidade inviolável de cada ser humano e o respeito pelas diferenças.
Aliás, o diálogo não se impõe apenas como exigência para a paz. Ele é constitutivo do ser Homem, pois a identidade é atravessada e mediada pela alteridade. Sem "tu", não há "eu".
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