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João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Professor universitário
Vivemos numa daquelas raras épocas que não sabe bem o que pensar acerca do Céu e do Inferno. A confusão nesta questão, de longe a mais decisiva de todas, é estranha porque, nos seus aspectos básicos, as coisas são realmente muito simples.
Primeiro, a eternidade não é, como tanta gente pensa, uma infinidade de tempo. Pelo contrário, a eternidade é a ausência do tempo, o "fim dos tempos". Isso significa que nessa situação perderemos este nosso terrível defeito de viver apenas um momento de cada vez e teremos a vida em pleno. Visto de outra forma, na eternidade as nossas opções tornam-se definitivas, consagradas acima do tempo, como a cerâmica ao sair do forno. Na eternidade cada um de nós viverá em integridade a opção básica a que decidiu entregar a sua vida.
O segundo elemento desta questão é que Deus nos ama apaixonadamente, a todos e a cada um, porque "Deus é amor" (1 Jo 4, 8 e 16). Assim, na Sua própria natureza, Deus quer a total felicidade para qualquer pessoa. Isso significa que Deus não condena ninguém. Ele leva sempre todos para o Céu.
Se juntarmos estes dois elementos, a conclusão é que na eternidade o amor de Deus respeita as nossas opções fundamentais. Cada um quer ser feliz à sua maneira e Deus, que nos ama muito e nos fez livres, quer que isso se verifique. Tal significa que há zonas do Céu em que o egoísmo elimina o amor, em que a violência e o prazer são os objectivos, em que o orgulho expulsa o próprio Deus. A essas zonas do Céu chama-se Inferno.
Deus concede a cada um que viva a eternidade da maneira que essa pessoa pensa ser a mais feliz. Aqueles que encontram a felicidade no louvor a Deus, que é a suprema beleza, o supremo prazer, a suprema bondade, esses estarão no Céu. Aqueles para quem "o seu deus é o ventre" (cf. Fl 3, 19), dedicam a sua vida a valores menores e querem uma felicidade que é a perdição. Essas coisas, que também Deus criou, são boas, mas colocadas acima do seu Criador caem no mal. Deus fez o Céu, nós fazemos o nosso próprio Inferno. Como disse Santo Agostinho, "o pecado traz consigo o seu suplício" (Comentários aos Salmos, Salmo 14, 3). Dar ao pecador o que ele quer é a sua maior tortura.
Que dizer então do lago de fogo, do juízo final, dos condenados? Trata-se simplesmente de uma forma sugestiva e colorida de dizer o mesmo, como uma mãe que assusta o filho com o papão se ele mexer em fósforos ou fichas eléctricas. O nosso tempo age como o rapazola insolente que, descobrindo que não há papões, vai meter os dedos na tomada de corrente.
Significa isto que não existe o Diabo? Claro que existe! A essa pergunta podemos até responder por experiência directa. Antigamente, quando se vivia em aldeias, as pessoas não viam o Demónio, mas acreditavam nele. Hoje vemo-lo claramente, mas deixámos de acreditar. Deixámos de acreditar por nos acharmos responsáveis. Assim, a partir do momento em que não conhecemos o Diabo, passamos a chamar demónios aos outros que conhecemos.
O inimigo da nossa natureza está bem visível a cada momento. No telejornal, nas séries televisivas, nos jogos de computador. Ele é até invocado pessoalmente em múltiplos filmes de terror ou bandas "metal". Em particular, é visível naquele mal puro, sem interesses, sem razões, sem justificações. O mal absoluto que vemos no terrorismo e na discriminação, mas também nos vírus informáticos. O prazer no mal, dos hooligans e do sado-masoquismo. O mal só pelo mal tem de ter uma causa autónoma.
De facto, quando deixámos de acreditar nessa personificação maléfica, baixámos as defesas e passámos a tolerar algumas das suas manifestações mais horríveis. Aborto, depravação, pornografia, gula, arrogância, e muitas outras, são hoje vistas como anedotas, expressões de personalidade, traços culturais, comportamentos excêntricos. Por isso o Diabo nunca foi tão visível como desde que deixámos de falar dele.
Estas ideias são tão simples que se estranha que um tempo tão sofisticado tenha tanta dificuldade em entendê-las. Para mais porque são essenciais. Todos vamos morrer e por isso é decisivo pensar no que vem depois. Esquecemos esses assuntos para nos dedicarmos ao progresso e eficiência do dia-a-dia. E chamamos a isso realismo. Como tratar da arrumação da mobília num navio a afundar. Só há um paralelo para esta atitude: a engorda no matadouro: "O homem que vive na opulência e não reflecte é semelhante aos animais que são abatidos." (Sl 49(48) 21).
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