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Ser claro em política? Oh, Ségolène...

por

Vicente Jorge Silva

Jornalista  

O director do Público dedicou o seu editorial de 10 de Junho a um tema inusitado. Não escreveu a propósito do Dia de Portugal e das suas expectativas sobre o discurso de Cavaco Silva - de quem é apoiante incondicional. E escusou-se a comentar as últimas notícias vindas do Iraque, como a recentíssima morte de Al- -Zarqawi, chefe da Al-Qaeda, e as novas revelações sobre o massacre perpetrado por marines norte-americanos contra civis iraquianos em Haditha, revelações que tiveram largo eco nos media internacionais (a começar pela insuspeita revista Time, que divulgou o caso).

Apesar da devoção missionária com que tem seguido e perfilhado a intervenção americana no Iraque, José Manuel Fernandes optou por guardar de Conrado um prudente silêncio sobre temas tão candentes e dedicar as suas reflexões a outro assunto, cuja actualidade não parecia particularmente pertinente naquele dia: a eventual candidatura da socialista Ségolène Royal à presidência da República Francesa. O editorial intitulava-se "Ser claro em política". É um título que, numa perspectiva irónica, poderia servir para interpelar a coerência e a clareza do director do Público.

De facto, nem nesse dia nem nos dias seguintes - não obstante a invulgar frequência com que faz publicar os seus editoriais doutrinários - Fernandes dissertou sobre o discurso de Cavaco no 10 de Junho ou sobre as últimas notícias do Iraque, apesar da indiscutível relevância política que estas tinham. Preferiu antes compensar essa misteriosa discrição com a análise das contradições de Ségolène Royal, tomada como exemplo da incapacidade da esquerda francesa para ser consequente e, presume-se, fazer face à candidatura do actual ministro do Interior, Nicolas Sarkozy. Nem por acaso, Sarkozy é um favorito declarado de Fernandes mas tem vindo a ser ultrapassado nas sondagens por aquela que o director do Público, num assomo porventura inconsciente de misoginia, chama a "menina bonita" da política francesa.

Fernandes critica Ségolène pela incoerência e inconsistência das suas posições heterodoxas (até porque foi ministra de Lionel Jospin) mas parece aceitar de bom grado a ambivalência calculista e cínica de Sarkozy, que joga simultaneamente dentro e fora do poder do Estado (nos papéis de ministro e crítico do Governo e do Presidente Chirac) para assim reunir uma sólida base de apoio às suas ambições presidenciais. Será isto ser claro em política - ou em jornalismo? Será que Ségolène é apenas um pretexto para o director do Público desviar as atenções e evitar comprometer-se com temas eventualmente mais desconfortáveis para o seu missionarismo ideológico? Oh, Ségolène…

A candidata actualmente favorita na corrida ao Eliseu - algo que parece preocupar sobremaneira José Manuel Fernandes, a ponto de esquecer o Dia de Portugal e o Iraque… - mostra-se vulnerável, decerto, a acusações de oportunismo e até populismo quanto a algumas posições que defende e que o director do Público questiona, seja no que se refere ao internamento de jovens delinquentes em instituições sob tutela militar, seja no que diz respeito ao horário de trabalho das 35 horas semanais estabelecido pelo Governo de Jospin. Só que Fernandes não é, de todo, equitativo e imparcial nas suas exigências críticas: não criticou Cavaco pelos seus silêncios, omissões e ambiguidades na campanha presidencial e, muito pior do que isso, insiste em justificar, por puro e cego dogmatismo ideológico, a invasão do Iraque (talvez seja por esse motivo que é tão condescendente com Tony Blair - embora critique Ségolène por tentar passar por "blairiana" noutras questões).

A irrupção de Ségolène Royal na disputa presidencial e na modernização da esquerda em França (Jacques Julliard falava recentemente de um novo Bad Godsberg) não pode ser reduzida a um episódio anedótico tão ao gosto do antifrancesismo primário de alguns neoconservadores, entre os quais alinha o director do Público. Ségolène desafiou, para já, alguns tabus do arcaísmo socialista francês. Lembrou, nomeadamente, que são as classes populares as que mais sofrem com o laxismo do Estado em matéria de segurança, uma área que a direita e a extrema-direita têm monopolizado. E embora as suas posições sobre as 35 horas pareçam efectivamente confusas, o simples facto de questionar um arreigado dogma socialista abriu um espaço de debate que, até agora, a esquerda recusava. Talvez seja isso, afinal, que perturba não apenas os chamados "elefantes" do PS francês ou Sarkozy e a direita, mas também, pelos vistos, certos editorialistas portugueses em suspeita crise de clareza política.


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