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Elsa Costa e Silva
Ivone Ralha
Andam pelos arquivos distritais, vasculhando registos paroquiais. Perdem horas enterrados na Torre do Tombo. Acabam a saber latim e ficam especialistas em caligrafias antigas e português arcaico. Os amantes da genealogia, assim como o negócio à volta dos antepassados, estão a crescer em Portugal e há cada vez mais pessoas interessadas em descobrir quem foram os seus ancestrais. E nestes, dizem os especialistas, há uma grande mistura social: todos irão encontrar parentes nobres e padres e, nas famílias tradicionais, pessoas de menor condição.
Para além daqueles que são genealogistas amadores, fazendo uma pequena pesquisa dos seus antepassados, há também quem recorra a serviços profissionais, que já existem no mercado. E assim, também os clientes da genealogia estão a aumentar (ver texto ao lado).
Actualmente, há já mais de meio milhão de portugueses, com a respectiva árvore genealógica, inseridos numa base de dados online - a segunda maior do mundo, com paralelo apenas em França, Inglaterra e Alemanha - que procura construir as redes familiares. Nesse registo, são já quase 46 mil as famílias que podem encontrar informação sobre a sua história. O Genea Portugal, um portal criado em 2000, tem sido um dos visitados do canal Sapo. E inscritos no fórum, onde se trocam experiências e informações, estão já mais de dez mil pessoas. Luís Amaral, um amante da genealogia e responsável pelo portal, é um dos especialistas que garantem que "todos os portugueses são descendentes de D. Afonso Henriques".
Iza Luso Barbosa, que se profissionalizou nas artes da genealogia há várias décadas, não tem dúvidas em afirmar que "todos temos antepassados de origens muito díspares: quase todos temos antepassados no clero e sempre que regredimos uma geração podemos encontrar origens humildes para grandes famílias".
O interesse pela pesquisa de antepassados não se restringe às fronteiras nacionais. Há muitos estrangeiros a entrar nos fóruns e a pedir ajuda, explica Luís Amaral. Uma das nacionalidades que mais procuram por antepassados lusos são os brasileiros, que podem ter acesso à nacionalidade portuguesa se um dos avós tiver nascido deste lado do Atlântico.
Por outro lado, explica também José Caldeira, da Associação Portuguesa de Genealogia (APG), "há uma segunda ou terceira geração de emigrantes que sentem a necessidade de saber de onde vieram". Por isso, engrossam a lista dos que escrevem para o site da APG perguntando "como se faz", até porque não sabem desenvolver pesquisa em Portugal.
Porque essa prática está cada vez mais ao alcance de todos. Luís Amaral explica que o site democratizou a informação, explicando passo a passo como se faz uma pesquisa de antepassados. "Ajudou a perceber que a genealogia não tem nada de transcendente", explica. Também José Caldeira concorda que agora "as pessoas começam a perceber que isto não é só para alguns: é para todos".
Durante décadas, a genealogia esteve associada à nobreza. Prática ancestral, que aparece relatada até na Bíblia, esta ciência dos antepassados era uma justificação perante a sociedade. Assim nasceram os livros nobiliárquicos, que se divulgaram na Idade Média. Em 1563, torna-se obrigatório às paróquias o assento de baptismos e casamentos. Mais tarde, em 1614, essa obrigatoriedade alarga-se também aos funerais.
E esta é a informação essencial que poderá permitir a cada português recuar para recuperar a história da família. Claro que a empreitada nem sempre é fácil: houve incêndios em igrejas, o terramoto de Lis- boa, as invasões franceses e outros acontecimentos que contribuíram para a perda de muitos registos. Por vezes, basta que tenha havido uma longínqua mudança de residência para que o rastro se perca. Mas nas dificuldades, os genealogistas podem sempre contar uns com os outros. Luís Amaral diz que acabam por se constituir comunidades informais onde "todos se ajudam". O que pode poupar deslocações e custos. É que a genealogia é para todos, mas não para todas as carteiras: envolve gastos elevadíssimos em recursos, deslocações e dias perdidos.
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