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por
Maria João Caetano
A peça chama-se Me Cago en Dios e o cartaz apresenta uma sanita aberta, da qual saem (ou para a qual entram) vários símbolos religiosos: uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, um Buda, um crucifixo, uma bandeira com o Crescente Vermelho. O espectáculo estreou-se na segunda-feira, no Teatro da Comuna, em Lisboa, e desde então já foi alvo de vários protestos, sobretudo ligados à Igreja Católica.
No primeiro dia, a seguir à estreia, uma senhora entrou pelo teatro à procura do "cagador". A polícia foi chamada e ajudou-a a ir para casa. Entretanto, já por duas vezes a produção teve que mandar limpar o telão que está pendurado na parede da Comuna porque, durante a noite, alguém foi lá pintalgar o cartaz e escrever uns insultos. E há também um protesto a circular por e-mail, chamando a atenção para o facto de este ser um espectáculo apoiado por entidades públicas: "Não queremos proibir nada, nem coarctar a liberdade de expressão e de arte. Queremos é que não seja o Estado, nós, a pagar isto."
Na Comuna, cujo contacto se encontra nessa mensagem, os mails têm chegado em catadupa. "Limitámo-nos a alugar o espaço, não apoiámos o espectáculo nem sequer na divulgação", diz a porta-voz da companhia. "De qualquer forma, não fazemos, porque sempre lutámos contra isso, qualquer censura das peças que aqui se apresentam."
Miguel Abreu, da Cassefaz, explica que se trata de uma co-produção entre esta produtora e a Associación de Actores de Teatro de Madrid. O texto e a encenação são do espanhol Iñigo Ramirez de Haro, a interpretação é do actor português Carloto Cotta. "É um espectáculo que faz uma reflexão provocadora sobre as várias religiões e o milhões que, em nome das religiões, foram mortos ao longo dos séculos."
Depois da polémica com as caricaturas de Maomé e da contestada estreia do filme O Código Da Vinci, este protesto vem relançar o debate sobre a liberdade de expressão e as religiões. "Estamos num Estado laico e onde cada um tem o direito de ter a sua religião, ou não ter nenhuma", diz Miguel Abreu, que afirma ainda que a questão dos patrocínios "nem sequer é discutível": "As entidades apoiam os espectáculos baseadas em valores artísticos."
"As pessoas falam sem ver o espectáculo, nem tentam perceber", queixa-se Miguel Abreu, que, no entanto, não fica surpreendido com estas reacções. Quando o espectáculo se estreou em Espanha, em Abril de 2004, o arcebispo de Madrid considerou-o "ultrajante" e exigiu "a sua retirada imediata" de cena. Em comunicado, a Igreja espanhola considerou que a obra constituía uma ofensa à dimensão religiosa de qualquer pessoa: "Um gravíssimo delito, punível pelo simples facto de o título [Me Cago en Dios não tem tradução para português] ser a expressão mais abrupta da blasfémia, o que supõe ferir a sensibilidade da grande maioria da sociedade."
Contactado pelo DN, o bispo Carlos Azevedo confirmou conhecer a existência deste espectáculo mas recusou-se a tecer qualquer comentário à peça ou aos protestos: "As pessoas são adultas e fazem o que querem", disse o porta-voz da Conferência Episcopal.
Iñigo Ramirez de Haro e o actor Fernando Incera Pérez chegaram a ser atacados por dois jovens de extrema-direita que os feriram ao mesmo tempo que gritavam "Viva o Cristo-Rei." Na altura, o autor e encenador explicou: "Não provoquei nenhum escândalo. É um problema de liberdade de expressão num país constitucionalmente laico. Sou escritor e utilizei a linguagem da rua, popular. Esta expressão ouve-se constantemente." Apesar das muitas denúncias em tribunal, o autor foi absolvido do crime de "provocar o ódio a partir de motivos religiosos."
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