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Paula Lobo DN | Diana Quintela
Alguns associarão o nome ao célebre desenho de Da Vinci sobre as proporções do Homem, também citado no Código que Tom Hanks protagoniza agora no cinema a partir do best-seller de Dan Brown. Talvez menos saberão que Vitrúvio foi o "pai" do Urbanismo e da Arquitectura, o primeiro a reunir num tratado as teorias e práticas de edificação. Mais de dois mil anos depois do seu De Architectura, Manuel Justino Maciel publica a primeira tradução portuguesa directamente do latim. Uma edição do Instituto Superior Técnico (IST Press), já saudada como um marco na cultura do País.
Lançada segunda-feira ao final da tarde, na Sociedade de Geografia de Lisboa, esta obra de 456 páginas apresenta não só o conteúdo dos dez livros que constituem o tratado do arquitecto romano como explica, em notas do tradutor, as definições, o léxico vitruviano e as opções propostas pelas variantes dos manuscritos. Incluindo ainda cerca de 70 ilustrações do historiador norte-americano Thomas Noble Howe, que integraram a edição da Cambridge University Press, publicada em 2001 - Vitrúvio fez uma dezena de desenhos (os schemata), mas desapareceram.
Trata-se da "palavra fundadora da Arquitectura, o seu livro originário", pelo que este é "um grande acontecimento para a cultura [nacional], comparável à primeira edição portuguesa da Ilíada", recordou na apresentação da obra Paulo Varela Gomes, historiador de Arquitectura da Universidade de Coimbra. Acrescentando que, "além do interesse que tem sempre a tradução de uma grande obra", esta ajuda-nos a "perceber hoje como preservar" sem cometer "erros de intervenção".
"Nós, arquitectos, sentimo-nos como se tivéssemos recebido um presente", admitiu Manuel Vicente, vice-presidente da Ordem dos Arquitectos, uma das muitas personalidades, nomeadamente do meio académico, presentes no lançamento.
20 anos a traduzir
Com formação em português, grego e latim e doutorado em História da Arte da Antiguidade, Manuel Justino Maciel (Durrães, 1948) iniciou a tradução em 1986. O ano em que Manuel Bairrão Oleiro (pai), seu falecido "mestre", o convidou para dar aulas na licenciatura e mestrado em História da Arte da Universidade Nova de Lisboa - onde lecciona.
"Julguei que seria útil se me debruçasse sobre os textos fundadores, para perceber a mentalidade, o contexto, a terminologia", contou ao DN. Vitrúvio é a referência primeira e as edições "nem sempre eram satisfatórias". Ou estavam incompletas (como as da Les Belles-Letres).
Debruçando-se sobre a edição crítica que F. Granger (ed. Loeb) fez do manuscrito mais antigo - o Harleianus, do século IX, que está no British Museum -, e comparando-a com outros textos vitruvianos, Justino Maciel dedicou sabáticas, férias e fins-de-semana a traduzir. "O latim é uma língua morta e precisa de vários dicionários", salienta, "e este livro não é para ler como um romance: é para consulta, para quem queira estudar engenharia ou urbanismo, embora se leia de um modo agradável".
Traduzindo para as suas aulas os primeiros textos "ligados ao urbanismo, à arquitectura das ordens, ao teatro ou termas", em 1995/96 o investigador deu à estampa o Livro V e os Proémios de Vitrúvio. Mas continuou a trabalhar. Até que em Fevereiro de 2005, com quase tudo pronto e por intermédio de Varela Gomes, recebeu o convite da IST Press para publicar os dez livros num só volume.
Com o tratado vertido em várias línguas (desde 1521) e quase 500 anos depois da encomenda a Pedro Nunes (ver caixa), Justino Maciel diz que este hiato também se explicará pela atenção que os filólogos nacionais têm dedicado sobretudo à literatura.
Afinal, muito do que se discute hoje em termos de urbanismo está escrito há mais de dois mil anos. Como lembra o historiador, além de descrever modelos e infra-estruturas da cidade romana, Vitrúvio já criticava o plágio, as derrapagens orçamentais e o exercício da arquitectura por pessoas sem formação.
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