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Cavaco Silva na descida ao País: "Sou um ouvidor"

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Maria Henrique Espada Rui Coutinho  

Sou um ouvidor, com certeza, tomo notas, mas não sou um Executivo": a frase de campanha eleitoral era de Mário Soares, mas ontem foi o Presidente Cavaco Silva a usá-la, à saída de um encontro com autarcas do distrito de Beja e concelho de Alcoutim, em São Domingos (ver caixa).

No primeiro dia do seu "Roteiro para a Inclusão" dedicado às regiões periféricas, envelhecimento e exclusão, foi Cavaco Silva a determinar o enquadramento do que ouviu: experiências pela positiva e exemplos bem-sucedidos. Cavaco disse querer "alertar a sociedade" para a exclusão, num périplo que o levou de Alcoutim e Mértola.

"Se coloquei o Pulo do Lobo no mapa, fico satisfeito se agora conseguir colocar Montes Claros também no mapa", contou ontem um Presidente da República em mangas de camisa, sob o calor de uma tarde alentejana, à saída da localidade que há 13 anos tinha 11 habitantes e hoje tem 65. Se o mapa de Pulo do Lobo era político, o local onde Cavaco passou, alheado, o fim-de-semana em que Mário Soares promoveu o congresso "Portugal, que futuro?", o mapa de Montes Claros, no concelho de Mértola, foi ontem o da primeira deslocação de Cavaco Silva no País.

À saída da aldeia, Cavaco falou de "um Portugal isolado, em risco de despovoamento, em que é pre- ciso fazer um esforço para que as pessoas não continuem a sair" rumo a destinos menos duros. Cavaco perguntou a receita ao mentor do crescimento de Montes Claros, António Sotero: "Como é que conseguiu?" O anfitrião e director do centro social local respondeu que "é a coisa mais fácil do mundo. Ponha-lhe uma boa estrada, um bom centro social, umas viaturas à porta para ir ao médico e repovoamos o interior".

Mobilização

Cavaco Silva deixou sempre, ao longo do dia, uma mensagem optimista, mas não tanto como esta. O Presidente pediu sempre, mais que estradas e viaturas, a mobilização da sociedade civil (termo que preferiu ao termo "iniciativa privada"): "Apelo a todos os portugueses para que ajudem esta parte do País", deixou ficar, ao deixar Montes Claros.

A receita da deslocação foi aliar a teoria, dando oportunidade aos responsáveis locais para exposições em power point da obra feita em matéria de apoio social, à prática, com visitas a duas aldeias onde os exemplos são positivos. Começou junto ao Guadiana, em Alcoutim, um dos 12 concelhos mais pobres do País, e onde ouviu o presidente da Câmara e o responsável do Centro Regional de Alcoologia do Sul. Mas, de tudo isto, Cavaco reteve um número: no ano passado, só nasceram 14 bebés no concelho inteiro. Subindo depois à aldeia de Torneiro, o Presidente perguntou aos locais se algum dos 14 era dali. Que não: "Só se for eu, mas com 52 anos..." É pois aos mais velhos que a carrinha da câmara, sem fazer o milagre de trazer gente nova, vai medindo a tensão, o colesterol e fazendo os testes da diabetes. Sempre acompanhado pela mulher, Cavaco subiu à ambulância, mediu a tensão, que, ficou-se a saber, "costuma ser baixa". Posou para fotos a pedido, comeu o pão amassado nessa noite, que os impedimentos de campanha já lá vão, pediu "um novo espírito de solidariedade". Em Mértola, Cavaco passou, por acaso, no café onde comeu caracóis no célebre episódio do "Pulo do Lobo". Já voltou ao Pulo do Lobo, entretanto, mas apenas com o propósito turístico de ver o Guadiana a 'pular' com mais caudal.

O discurso presidencial, sempre em tom optimista e apelando à mobilização geral, nunca beliscou o Governo. José António Vieira da Silva, ministro do Trabalho e Segurança Social, não deverá ter sentido em momento algum razões para se sentir incomodado. Questionado sobre se o Governo deve fazer da exclusão uma prioridade, o Presidente da República respondeu que deve ser "uma prioridade de toda a sociedade".

Mais claro, afirmou que "não se pode pedir aos Governos e ao Estado que façam tudo". Os autarcas, apontou, têm um papel a cumprir.


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