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Elsa Costa e Silva
A ministra da Educação traçou ontem um quadro arrasador da falta de orientação das escolas e dos professores para os resultados dos seus alunos. Turnos da manhã reservados a turmas dos melhores alunos e filhos dos funcionários da escola, preocupação quase exclusiva para o cumprimento "burocrático-administrativo" das leis e distribuição das melhores turmas aos melhores professores são alguns dos exemplos apontados por Maria de Lurdes Rodrigues para dizer que a escola tem-se preocupado em dar aulas, mas não com o sucesso educativo dos alunos.
Este retrato foi desenhado pela ministra na abertura de uma série de seminários, promovidos pelo Conselho Nacional de Educação, no Fórum da Maia, numa plateia com professores. Apesar do rosto desagradado de muitos face ao discurso de Maria de Lurdes Rodrigues, as manifestações públicas foram escassas. Isabel Cruz, professora da Trofa, foi, perante os jornalistas, a voz do protesto que os colegas silenciaram: "Estou perfeitamente revoltada. A senhora ministra tem que respeitar os principais agentes da educação. Fez um retrato da escola no qual não me revejo". A docente assinalou a "gravidade" do que disse a ministra e acusou-a também de "ignorar e não escutar" os professores.
O tema do discurso de Maria de Lurdes Rodrigues - que prometeu ser "bastante informal" - não é novo: a governante tem apontado várias vezes a falta de mobilização da escola para os resultados. Mas ontem a ministra exemplificou com situações concretas o que diz ser esta falta de orientação para melhorar o desempenho dos seus alunos.
Apontou o caso da organização de turmas e de horários : "No turno da manhã, funcionam as melhores, permitindo ainda que, à tarde, por exemplo, esses alunos tenham actividades de enriquecimento curriculares". As explicações que são dadas para este cenário podem ser muitas, diz a ministra, que não deixou de salientar os casos em que dizem que essas turmas são para "os filhos dos funcionários da própria escola para facilitar a organização da família". E a conclusão da ministra é imediata: "Os melhores resultados são só para alguns."
Quanto ao funcionamento da escola, afirma a ministra, "tudo se cumpre, burocrático e administrativamente, de forma perfeita" e vem a inspecção "que confirmará a conformidade com as normativas legais". Mas neste processo, garante, não há uma organização em função dos resultados. Assim como não há na questão dos apoios educativos: "uma vez sinalizada, a criança não sai da sinalização". Logo, os apoios não ajudam a criança a ultrapassar as dificuldades de aprendizagem e são apenas "um conjunto de práticas ao serviço da sua própria existência".
Os professores não passaram incólumes pelo discurso da ministra, que considerou ser uma classe com uma cultura profissional (que comparou com os médicos) que não tem como objectivo o sucesso educativo dos alunos. "Não são orientados para os casos mais difíceis. Os melhores professores ficam com os melhores alunos e os docentes com pior estatuto na casa levam com as turmas mais difíceis", afirmou a ministra, garantindo ainda não haver trabalho em equipa nas escolas. O discurso foi recebido com palmas pouco entusiasmadas da assembleia.
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