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Sónia Morais Santos
O semblante carregado, o olhar triste, a cabeça baixa. Foi assim que Bento XVI entrou ontem no antigo campo de concentração de Auschwitz. A visita ao lugar onde morreram mais de um milhão de pessoas, na sua grande maioria judeus, é considerada um importante momento histórico. O Papa, que como qualquer jovem alemão seu contemporâneo chegou a pertencer à Juventude Hitleriana (mas depois desertou), mostrou a sua emoção em Auschwitz e deixou o compromisso de lutar sempre e com todas as forças contra a barbárie humana.
Seguido por um grupo de cardeais e bispos, Bento XVI, vestindo uma sotaina branca, avançou pelo campo de concentração a pé até ao Muro das Execuções, onde se deteve só, a rezar. O Sumo Pontífice recitou uma pequena oração em alemão, plena de simbolismo e força: "Senhor, Tu és o Deus da paz/ Tu és a paz/ um coração que procura a querela não Te compreende,/ um espírito repleto de violência não poderá apreender-Te. /Faz com que todos os que vivem em harmonia se mantenham em paz e que todos os que estão em litígio se reconciliem./É isto que Te pedimos através de Cristo, nosso Senhor."
O grande rabino da Polónia, Michael Schudrich, considerou a visita do Papa Bento XVI ao antigo campo de concentração de Auschwitz- -Birkenau como sendo "um grande momento no processo de reconciliação" entre cristãos e judeus. "Vamos rezar para que este Papa siga o mesmo caminho que João Paulo II, na luta contra o anti-semitismo", disse Michael Schudrich à France Press.
Bento XVI confessou ser "difícil para um cristão, para um Papa vindo da Alemanha" usar da palavra ali, naquele "lugar de horror, de acumulação de crimes contra Deus e contra o Homem que a nada pode ser comparado na História." Em seguida, o Papa, para quem o diálogo inter-religioso é uma das preocupações, saudou um a um, os 32 sobreviventes de Auschwitz que marcaram presença, ontem, no campo de concentração nazi.
E assim terminou a visita de quatro dias do Papa Bento XVI à Polónia. Uma visita também marcada pela Eucaristia que o Sumo Pontífice celebrou ontem de manhã, na esplanada de Blonia, em Cracóvia. À missa compareceram cerca de 900 mil compatriotas de João Paulo II, ficando provado que Bento XVI já conquistou o coração dos polacos.
Foi frente a essa impressionante moldura humana que o Sumo Pontífice foi aclamado quando disse: "A Cracóvia de João Paulo II é também a minha Cracóvia!" O Papa pediu à multidão para se manter fiel à memória de João Paulo II, "vosso compatriota", que defendeu a fé "com uma força e uma eficácia extraordinárias". João Paulo II foi, de resto, muito lembrado. Para justificar a visita à pátria do seu antecessor, Bento XVI citou o poeta alemão Goethe: "Quem quer compreender um poeta deve visitar a sua terra natal."
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