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Miguel Gaspar miguel.gaspar@dn.pt
A notícia da penúltima edição do Expresso, de acordo com a qual 70% das notícias dos jornais partem de agências de comunicação ou de assessorias de imprensa, tornou--se um must no debate dos media durante o furacão Carrilho/Rangel. Entende-se o motivo: a própria notícia do semanário foi produzida por uma... agência de comunicação. É um caso - inédito? - em que a simples publicação de uma notícia reforça a estatística que a notícia revela. Pode concluir-se desses estudos que os jornalistas são meros republicadores de cozinhas alheias em vez de sentinelas do interesse público?
Dos dois estudos incluídos na notícia, um nem merecia publicação: os dados são de 1997, excluem um dos principais diários e referem-se a um universo de... 28 notícias. Mas o facto de ter sido publicado talvez seja uma prova do poder das agências sobre redacções acríticas. O outro estudo é mais sério e mostra que há uma grande diferença entre a quantidade de notícias oriundas de "fontes organizadas" em Portugal e em Espanha. O nosso lado é o que fica mal na fotografia. Em si mesmas, as agências de comunicação são apenas a variante moderna, mais sofisticada, de sistemas de persuasão da opinião pública que remontam ao período entre as duas grandes guerras. Mas alteraram a lógica da relação entre jornalistas e fontes, ao imporem-se como intermediárias no negócio da informação e por terem o poder de agir, em simultâneo, sobre inúmeros meios. O poder das agências resulta da complexificação da informação. As grandes instituições políticas e económicas usam-nas para tentar gerir à distância as expectativas de mercados e de eleitores e para limitar estragos quando as notícias decidem desobedecer às estratégias prévias.
O problema está na ilusão de poder que estas agências geram e que é comum à publicidade e ao marketing. Quem quer manipular a informação acredita que vai mudar as convicções de terceiros, alienando a atenção e a consciência destes. Mas o manipulador é, potencialmente, a primeira vítima da sua manipulação, se acreditar na infalibilidade de uma estratégia. Quanto à comunicação, é um universo caótico e, nas sociedades actuais, é literalmente impossível controlar como se quer a repercussão de uma mensagem.
Nada pode fazer esquecer isto: o poder efectivo ou imaginário das agências de comunicação depende da capacidade de os jornalistas serem plenamente autónomos. Ora, o jornalismo português, infelizmente, nem precisa das agências de comunicação para ser passivo e baço. Em grande parte devido às dificuldades em recriar uma agenda e quanto às relações com as fontes.
Nas sociedades actuais, o paradigma já não é o controlo: passou a ser a acção directa dos cidadãos sobre a informação. Apanhados entre estes fogos, os jornalistas têm pela frente escolhas das quais depende a sobrevivência do jornalismo.
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