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Isabel Lucas
Adecisão, lacónica, foi comunicada via Ministério da Cultura. José Luandino Vieira, o escritor angolano de 71 anos escolhido para receber a edição de 2006 do Prémio Camões, optou por não aceitar o galardão no valor de 100 mil euros, evocando, para isso, "razões pessoais, íntimas".
É a primeira vez que um premiado recusa receber aquela que é a maior distinção das letras em língua portuguesa. Desde a passada sexta-feira, 19, dia em que o seu nome foi anunciado para suceder ao da brasileira Lygia Fagundes Telles (Camões/ 2005), que Luandino Vieira se refugiou no silêncio. Ontem de manhã ligou ao editor. "Telefonou-me a dizer que não ia aceitar o prémio por razões pessoais", declarou Zeferino Coelho ao DN, adiantando que ainda teve tempo para "lhe dar um abraço" a felicitá-lo pelo que considera ter sido um "justo reconhecimento". Foi a primeira vez que falaram desde a atribuição do prémio. "Respeito a decisão", limitou-se a dizer o editor que já anunciou para este ano um novo título de Luandino: O Livro dos Rios.
A recusa do escritor, apesar de inédita, não implica, da parte do júri, o anúncio de um segundo nome, conforme referiu ontem Isabel Pires de Lima, socorrendo-se para tal do regulamento do prémio que não prevê este tipo de situação. "Houve prémio, foi atribuído, mas o autor entendeu não o receber". A ministra da Cultura adiantou que os 50 mil euros da comparticipação portuguesa ficarão no orçamento do Gabinete de Relações Internacionais do ministério.
A reacção do escritor angolano, autor de dez obras de ficção - entre as quais Luuanda, No Antigamente, na Vida, Macandumba, Vidas Novas ou A Cidade e a Infância - suscitou um breve comentário da parte das autoridades brasileiras, a quem compete a outra parte do financiamento. "O Ministério da Cultura do Brasil compreende e respeita a decisão do escritor", disse ao DN uma assessora do ministro Gilberto Gil.
Luandino Vieira foi o 18º nome - e o terceiro africano - a ser distinguido com o Camões, prémio criado em 1989 pelos governos de Portugal e do Brasil para distinguir anualmente um escritor que contribua para "enriquecer o património literário" em língua portuguesa. Um prémio que acerca do qual se ouvem cada vez mais vozes críticas, a questionar a sua rotatividade e acusando-so de se reger por critérios que não os meramente literários.
Terá pesado isto na decisão de Luandino? Se pesou, não o referiu quando recusou os 100 mil euros. "Não é minimamente surpreendente", declarou a apropósito José Rodrigues, à Lusa. O escultor, dono do convento em Vila Nova de Cerveira, onde Luandino se isolou há cerca de dez anos, referiu o modo de vida "despojado" do escritor, como justificação possível da recusa.
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