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Pescadores de Setúbal mudaram de negócio

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Vitorino Coragem  

Apesar de se assistir ao rápido desaparecimento da pesca enquanto actividade económica, os passeios turísticos dão uma nova vida ao porto de Setúbal. Os antigos pescadores voltam a sorrir.

O rio tem as suas próprias regras. Ao longo da sucessão das luas e das marés, o pescador aprende a sua linguagem. O seu movimento, o seu temperamento, o seu cheiro. Limita-se a copiar- -lhe os passos, como se de um filho se tratasse. Por uma questão de admiração e respeito. Por uma questão de sobrevivência. O sol está alto e as gaivotas que sobrevoam o porto fazem lembrar um tempo que parece não regressar mais. Um tempo em que davam as boas vindas às traineiras carregadas de peixe. Um tempo em que os homens do mar eram recebidos como heróis. Agora, os barcos passeiam pelo rio, apenas. O pescador guardou as redes e conta histórias a estranhos. No entanto, continua a copiar os mesmos passos. Os passos do rio Sado.

Jorge Sena tem a agenda preenchida, até ao final do ano. No Inverno transporta grupos de pescadores desportivos até onde os cardumes procuram comida. No Verão organiza passeios turísticos. Em Setúbal, a oferta deste tipo de serviços é cada vez maior. Os homens do mar abandonaram a pesca, devido à crise que se vive no sector. " Lembro-me do momento em que tivemos de abater o antigo barco, chegámos a chorar. Com o dinheiro que recebemos do Governo, comprámos esta embarcação", conta o senhor Jorge.

O antigo pescador de 58 anos orgulha-se de ter remodelado o "Roaz do Sado". Tem um motor novo, GPS e sonda e obedece a todas as normas de segurança. "A inspecção é muito apertada e faço questão de ter tudo em ordem. Nunca se sabe o que poderá acontecer numa viagem", diz.

A família Sena sempre esteve ligada ao mar. Ao longo de gerações, habituaram-se à ideia de que o regresso a terra não é um dado adquirido, mas Jorge Sena revela que o perfume da maresia falou sempre mais alto. "O Sado sempre foi tudo para mim e tento partilhar esta paixão", explica. Os seus passeios começam às cinco da manhã e terminam com o pôr-do-sol. O preço da viagem é cerca de 35 Euros. A caldeirada ou a massa de cherne é da responsabilidade da sua esposa, D.ª Damieta.

Sobre a concorrência, diz que muitos colegas estão a seguir o seu exemplo, mas alguns correm riscos. "As pessoas pensam que é fácil, mas algumas nunca andaram no mar." Jorge Sena vê ainda com bons olhos o novo projecto turístico de Tróia, porque pode atrair mais clientes. O rio Sado recupera, aos poucos, a sua força. Por uma questão de admiração e respeito. Por uma questão de sobrevivência.


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