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Maria João Caetano
Foi tudo muito rápido. À uma da manhã as contracções já eram intensas, a seguir chegou a parteira, Irene Franco deambulou pelo quarto, pôs-se de gatas, deitou--se de lado, até que, finalmente, encostada ao seu incansável marido, "colada a ele" e na cama onde dormem abraçados todas as noites, Irene fez força, toda a força, até nascer a pequena Lara.
Não aconteceu nos anos 60. Foi há apenas três anos e cinco meses. Irene optou por dar à luz em casa. E não é a única. Em pleno século XXI, são entre 400 e 700 as mulheres portuguesas que, todos os anos, preferem não ter um parto hospitalar. Não aceitam o modo como se nasce hoje em dia nos hospitais, recusam-se a ser mais uma "doente" quando estão apenas grávidas, exigem que o parto volte a ser encarado como um acto fisiológico - que é - e não como um acto médico - que só deveria ser em casos excepcionais.
Como diz Irene: "Sempre me pareceu que os partos hospitalares têm imensas complicações e que recorrem a um sem-número de proce- dimentos que contrariam a nossa habilidade natural para ter filhos."
"Tem havido cada vez mais uma 'medicalização' do parto, com processos agressivos e que desvirtuam tudo o que é a fisiologia e a beleza do nascimento", confirma António Ferreira, 42 anos, enfermeiro-obstetra em hospitais há 12 anos e que há quatro começou também a realizar partos domiciliários. "Existe um excesso de intervencionismo no parto, que provoca aquilo a que chamamos o efeito cascata [procedimentos que levam a outros procedimentos], com consequências terríveis para a mãe e para o bebé."
Segurança em primeiro lugar
Num momento em que se discute o encerramento de maternidades por motivos de segurança, falar de parto domiciliário parece um absurdo a Luís Graça, presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos. "É um disparate", dispara. "A única maneira de ter filhos em segurança é em ambiente hospitalar e em hospitais devidamente equipados. Há sempre uns originais e até pode haver uma moda, mas vai passar. São fantasias."
A Irene bastaram poucas pesquisas para ficar convencida do contrário: "Quem critica o parto domiciliário costuma referir os números da mortalidade infantil e as complicações que existiam antigamente. Mas não estamos a comparar realidades idênticas", diz. "As pessoas viviam longe dos hospitais, os acessos eram maus, as mulheres não faziam uma alimentação correcta, não eram seguidas pelos médicos, não faziam qualquer preparação. Hoje falamos de mulheres informadas e de partos domiciliários preparados."
Mariana Tomás Fernandes, 51 anos, enfermeira-parteira há 30 anos, confirma: "As mulheres que optam por ter os filhos em casa são geralmente pessoas muito informadas, que querem participar na íntegra neste momento e querem que o seu filho também participe." "A segurança está sempre em primeiro lugar", acrescenta António Ferreira. Até hoje, nenhum deles teve problemas, mas ambos sublinham a importância de ter sempre "um plano B" e de saber quanto tempo se demora até ao hospital mais próximo. "Está provado que, com uma gravidez normal e um parto sem complicações, é tão ou mais seguro ter um filho em casa do que no hospital", explica Américo Torres, da Humpar .
Experiências traumáticas
Luísa Condeço despertou para este problema depois de um parto complicado, de uma cesariana e de um pós-parto com muita depressão. "Não só os partos podem deixar sequelas físicas e psicológicas nas mulheres como hoje sabemos que o modo como nascemos influencia a nossa vida, aquilo que somos e até algumas das doenças que vamos ter." Hoje, Luísa, uma das Doulas de Portugal, fala com ternura de todas as grávidas que ajudou a não passarem pelo que ela passou. "Muitas das mulheres que me procuram tiveram experiências traumáticas nos hospitais que não querem repetir", confirma Mariana Tomás Fernandes.
"Uma experiência de parto pacífica, tranquila e feliz tem benefícios para a mãe e para o filho", garante Luísa Condeço. Do outro lado, António Ferreira refere "o prazer de ver os rostos das famílias que recebem o bebé no seu ambiente, devidamente preparado."
Durante a gravidez, Irene fez hidroginástica e ioga para a ajudar no relaxamento e frequentou um curso de preparação, embora reconheça hoje que "tudo aquilo que precisamos saber está dentro de nós. É inato. Actualmente podemos estar um pouco desconectadas dessa realidade mas está tudo lá", diz numa voz serena. Nunca sentiu medo. "Estava muito confiante. Acredito que criamos a nossa própria realidade. Desejei proporcionar à minha filha um parto o mais natural possível. São pequenos momentos mas são determinantes nas nossas vidas."
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