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por
José Medeiros Ferreira jmedeirosf@clix.pt
Professor universitário
O lançamento do livro de Manuel Maria Carrilho Sob o Signo da Verdade marca sem dúvida a actualidade política. E marca a actualidade política porque coloca, para além dos episódios e das interpretações particulares, a questão mais geral das relações obrigatórias entre políticos e jornalistas em regime democrático e de liberdades públicas. A maior ou menor qualidade desses regimes afere-se, em parte, pela transparência dessa relação. O livro de Carrilho é por si só o testemunho de que entre nós há um hiato entre o que os protagonistas políticos querem transmitir e o que chega ao grande público através dos principais meios de comunicação social.
Repito: o testemunho é bem-vindo para além da maior ou menor justiça de apreciações feitas por Carrilho e da própria subjectividade envolvente. É bem-vindo pelos problemas que coloca e pela coragem pessoal que revela, pois afrontar a comunicação social e seus agentes, mesmo que circunstancialmente, é expor-se a uma bateria de represálias que qualquer político, cioso da sua carreira e da sua reputação, evita por regra. Muitos ficam à espera de serem compensados mais tarde pelo jogo volúvel das modas opinativas, ou ficam cativados pelos favores do gosto jornalístico no passado. E, de facto, quantos ídolos da praça pública foram exaltados pela comunicação social e depois se revelaram efémeros, fracos, ou sem qualquer substância?
Que me lembre, e para além do que se possa ensinar nas universidades, apenas um jornalista ousou analisar alguns casos de pura reacção corporativa dos jornalistas perante um ataque à comunicação social por parte de um político.
Foi Oscar Mascarenhas, e um dos casos analisados foi a minha denúncia, em Julho de 1975, do tratamento que era dado aos trabalhos da Assembleia Constituinte nos jornais O Século e Diário de Notícias.
Por essa ocasião, um reputado homem dos jornais como era Francisco Mata chegou a escrever n'O Século que eu podia ter assinado a minha certidão de morte política com aquela intervenção, pois bastaria aos jornalistas colocar por norma o meu nome na rubrica dos "entre outros" para eu desaparecer da cidade. Ao olhar para a reacção de alguns colegas na altura percebi que eles já me rodeavam como num velório…
Por isso também fiz questão de corresponder ao convite para estar presente no Salão Nobre do D. Maria II no lançamento do livro de Manuel Maria Carrilho, e até essa presença de figuras políticas foi já alvo de leituras enviesadas, como se isso fosse passível de condicionamento! O quarto poder é um poder bem real e capaz de retaliar nos pequenos detalhes.
Talvez não interesse saber ao certo como chegámos até aqui. Foi uma evolução que partiu das gazetas ideológicas ou apenas partidárias para os órgãos de grandes custos fixos como uma certa imprensa, rádios e televisões, onde impera soberano o "critério jornalístico" que Carrilho aprisionou na designação de "Conselho de Redacção Único" e que leva à harmonização ou à uniformização da opinião pública.
Também Mário Soares na sua última campanha presidencial denunciou alguns dos vícios instalados no funcionamento do quarto poder em Portugal, embora tivesse apontado mais para os aspectos empresariais do que para os aspectos jornalísticos. Tomei então essas críticas, e escrevi-o, como o resultado de uma previsão sobre um problema futuro na qualidade do regime democrático. A comunicação social e os jornalistas ocupam nos nossos dias o espaço de influência sobre a opinião outrora exercida pela Igreja e seus sacerdotes. Por isso a nossa sociedade é uma sociedade de comunicação sem réplica assegurada. As tiranias começam assim.
Depois de se ler o livro de Carrilho é impossível continuar a ignorar, por exemplo, a existência e o papel das chamadas "agências de comunicação", um bom tema para a recém-empossada entidade reguladora da comunicação social iniciar as suas ansiadas actividades.
Até aqui falava-se vagamente dessas "agências de comunicação"que ganhariam umas ou outras eleições, estabelecendo-se um ranking entre elas que seleccionaria duas ou três num sistema cartelizado. Por isso me interpela aquele conceito do livro de Carrilho de redacção única na comunicação social que uniformizaria a opinião pública.
Mas será que é composta por jornalistas? Ou ter-se-á de procurar os manipuladores da boa e da má moeda noutro lado?
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