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Miguel Gaspar miguel.gaspar@dn.pt
De acordo com a comunicação social, a comunicação social está dividida em três grupos: os inimigos do Carrilho, os amigos do Carrilho e os que estão fora de jogo. É só um exemplo de como a cobertura mediática do lançamento do livro Sob o Signo da Verdade foi redutora e afunilou o acontecimento. Um número significativo de comentários sobre o assunto refere-se não ao livro e sim ao registo mediático do lançamento. Mas este tem por base o modo como Carrilho produziu esse acontecimento.
Foi assim, também, no dia do Dinis Maria: a mensagem mais forte que o candidato conscientemente introduziu no discurso foi o lead da história e acabou por ser a história toda. O vídeo que segundo Carrilho "nunca existiu" (por ser apenas uma parte de um vídeo) merecia e merece crítica. Os jornalistas não o leram como um acto isolado, mas como o prolongamento das aventuras do candidato no território da imprensa do coração.
Carrilho gosta de ser o dono da mensagem. No livro, fala do modo como "corrige" as entrevistas antes de publicadas. E diz que o conteúdo das peças que a SIC viesse a elaborar sobre o debate com Carmona, na SIC Notícias, deveria ter sido acordado com a sua candidatura. São exemplos de dois tipos de situações, normais para o então candidato, mas jornalisticamente erradas.
Quem anda à chuva molha-se - e se Carrilho tem todo o direito de criticar a opinião alheia, não faz sentido que tome apenas por boa a comunicação que reflecte o que ele pensa. Sendo absolutamente certo isto: só lendo o livro eu conheci qual era o ideário do candidato socialista para Lisboa. O jornalismo tornou-se politicamente cínico e outorga-se o direito a diminuir o concreto da política, o que é jornalisticamente inaceitável.
Carrilho prolonga a ilusão de ter ganho o debate com Carmona na SIC Notícias. Mas o aperto de mão negado foi sobretudo chocante por ter sido o prolongamento de um debate em que a postura do candidato socialista foi mais arrogante e agressiva do que dada ao esclarecimento de propostas.
Há mais para ler do que a questão dos jornalistas neste livro, cuja tese central é a de que um conluio entre lóbis da construção, uma agência de comunicação e jornalistas travaram a vitória de Carrilho. Convém lê-lo além do fait divers e do espectáculo mediático do lançamento, onde boa parte da elite socialista deu um aplauso mudo às teses do autor.
O lançamento mostrou como Carrilho continua a acreditar no espectáculo mediático que afinal o devorou. Em tempos de crise, o espectáculo como mensagem significa futilidade.
A política-espectáculo é mortal quando o bolso dos eleitores está vazio. O contexto é o dono da mensagem, Carrilho sabe-o sem dúvida muito bem.
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