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A culpa é do Carrilho?

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Albano Matos amatos@dn.pt  

Divididos entre a defesa do sindicato e a necessidade da ordem, entre o Sporting e o Benfica (e o Porto), entre o Snob e o Procópio, entre o PS e o PSD, os jornalistas portugueses encontraram finalmente esta semana um ponto de união na reacção ao livro de Manuel Maria Carrilho Sob o Signo da Verdade.

"Um dos mais contundentes ataques à comunicação social de que há memória em anos recentes", "um dos mais ferozes ataques à comunicação social de que há memória em Portugal"... o tom geral das reacções ia neste sentido quase apocalíptico. A condenação unânime e imediata é, no mínimo, suspeita, sobretudo porque a maioria dos que a subscrevem nem teve tempo de ler a obra.

É verdade que Carrilho se tornou um alvo apetecível, a crer na imagem que se formou dele (também ou sobretudo na comunicação social): 'arrogante', 'vaidoso', 'conflituoso', vendo fantasmas ou conspirações em todos os cantos. Terá estes e muitos outros defeitos, mas os jornalistas cometerão um grave erro se ignorarem os argumentos desenvolvidos neste livro com base em alegados 'defeitos de personalidade' do seu autor.

Entre os defeitos de Carrilho não se conta a estupidez nem a cobardia. Em todas as passagens que relatam actos em que se afirma como vítima, aponta nomes, jornais, contextos. Do mesmo não se pode orgulhar parte do nosso jornalismo político, tão pródigo a recorrer a "fontes anónimas". Sugiro mesmo ao ex-ministro da Cultura que, em futuras edições, inclua no final um índice onomástico que evite a pergunta mais espalhada pela 'classe' por estes dias: será que ele também fala de mim? Ou, pior ainda: mas ele não fala de mim?

O que é Sob o Signo da Verdade? Nas palavras do autor, trata-se do "registo alucinatório com que a minha candidatura à presidência da Câmara Municipal de Lisboa foi enquadrada e tratada pela generalidade dos media portugueses", escrito com "o imperativo de repor a verdade na ordem dos factos e a objectividade no registo das interpretações". Lá estão os célebres episódios do "vídeo familiar" e do não aperto de mão a Carmona Rodrigues, no final de um debate televisivo, glosados de diferentes formas ao longo da campanha. Citando, sem o nomear (uma excepção), um famoso artigo de Cavaco Silva, explica que um dos principais objectivos do livro é combater a "lei de Gresham" (a má moeda tende a expulsar do mercado a boa moeda) na comunicação social e que esse é "um imperativo fundamental para todos aqueles que queiram contribuir para uma melhor informação e uma melhor democracia no futuro".

Carrilho não tem razão em vários pontos e, noutros, usa um tom tão desbragado e leviano como aqueles que acusa. Mas tem o mérito (raro entre nós) de denunciar situações e levantar questões fundamentais para o exercício do jornalismo. Despachá-lo com um rápido insulto é perder uma soberana oportunidade para as discutir.


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