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por
Luís Naves
O antigo secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, admitiu ontem em Lisboa que a "ocupação militar do Irão seria um pesadelo". O antigo diplomata, que hoje trabalha como consultor e académico, fez a afirmação numa conferência organizada pelo Diário Digital e apoiada pelo grupo Portugal Telecom. O tema era o Médio Oriente e o cerne da palestra foi dedicado ao desafio nuclear iraniano.
Kissinger começou por explicar, a uma audiência de políticos e quadros superiores de empresa, a diferença entre tomar decisões e ter opiniões académicas sobre os problemas. Segundo contou, na altura em que chefiou a diplomacia dos EUA, a sua maior preocupação foi a questão nuclear, pelos efeitos catastróficos de um erro diplomático.
Em resumo, o antigo secretário de Estado tentou explicar que os Estados Unidos vão negociar com os iranianos, embora a grande dificuldade esteja na definição do tempo desta negociação. O Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad "sabe que nós [Ocidente] somos mais fortes, mas ele pensa que é ideologicamente mais forte". Ou seja, a complexidade do assunto está na percepção que cada interveniente tem do outro e, sobretudo, na preponderância da ideologia.
Na perspectiva de Kissinger, a estratégia americana deve ser a de evitar a proliferação de armas nucleares, pois "o mundo tornou-se mais fragmentado". Na palestra, Kissinger admitiu que Ahmadinejad tem razão, quando diz que o seu país não pode ser afastado de uma tecnologia que domina (o enriquecimento de urânio). No entanto, é "imperativo" evitar que o Irão construa bombas atómicas. Kissinger sugeriu que seja aceite a proposta russa ou alguma forma de "unidade internacional de enriquecimento" de urânio.
Em relação às recentes posições iranianas, Kissinger afirmou que "podem ser propaganda ou podem querer dizer que os iranianos desejam negociar. A única maneira de saber é através de um processo negocial, embora este não possa durar indefinidamente".
Dizendo falar em nome pessoal, apesar da sua proximidade com a actual administração, Kissinger concluiu o tema dizendo que "se não formos bem sucedidos teremos de viver num mundo com elevado nível de proliferação nuclear e ninguém quer viver [num local] onde uma bomba pode rebentar a todo o momento". Isso seria inaceitável para as democracias. Outra ideia que deixou insinuada foi a de que o Irão já foi no passado firme aliado dos EUA na região e que haveria vantagens em regressar a essa antiga ligação estratégica.
Henry Kissinger não o disse abertamente, mas a forma como defendeu a realpolitik, em numerosos textos escritos como académico, deixa perceber que o antigo chefe da diplomacia de Richard Nixon será defensor de uma atitude mais pragmática em relação ao actual regime de Teerão.
"O essencial não é derrubar o Governo iraniano pela força militar", explicou. "O essencial é evitar que armas nucleares se tornem numa ameaça para a Humanidade".
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