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João Figueira
Oito adultos e seis crianças. Deixaram a família e os amigos, abandonaram a vida que tinham em Maringá, no Brasil, e partiram em busca de um sonho: maior estabilidade, segurança, um futuro mais risonho e viver na Europa. Ontem, ao princípio da noite, chegaram a Vila de Rei, no coração do Pinhal Interior, sorridentes e cansados, mas conscientes da sua missão: ajudar a repovoar uma zona em risco de desertificação e envelhecida. Quase todos vão trabalhar em lares da terceira idade.
Estes novos bandeirantes são o primeiro de vários grupos que se espera venham a fixar-se ali, num total de 250 pessoas, até 2008, fruto de um acordo estabelecido entre a câmara de Vila de Rei e a prefeitura de Maringá. O ritmo do povoamento vai depender das oportunidades de trabalho, dado que interessados não faltam. "A prefeitura de Maringá já teve de fechar as inscrições", assegura Irene Barata, a autarca portuguesa, sublinhando que neste momento existe uma lista de mil pessoas dispostas a vir para Portugal.
E, no entanto, a maioria nem sequer sabe ao certo em que vem trabalhar. Pedro Oliveira, 50 anos, professor de Literatura Brasileira, e a mulher, cabeleireira, são dos poucos que estão informados do que os espera. "Vamos trabalhar num lar de idosos, desenvolver actividades nas áreas do lazer e do entretenimento", afirma, ao mesmo tempo que esclarece que não foi o ordenado, na casa dos 400 euros, que os fez vir.
Letícia Duarte, 34 anos, psicóloga, diz que ouviu "qualquer coisa acerca dos idosos", mas sublinha: "só mais tarde é que vou saber que tipo de funções vou desempenhar". Letícia veio com o marido, informático, e as duas crianças, de seis e 11 anos, e "o facto de podermos vir todos, em família, foi importante".
Daniel Padilha, 25 anos, casado, mas ainda sem filhos, realça a vantagem de poder partilhar esta aventura com a mulher e com uma irmã de 21 anos (a única solteira adulta do grupo), enquanto sorri de satisfação pelas condições que foi encontrar na casa que ontem os acolheu, em S. João do Peso, a uma dúzia de quilómetros da sede de concelho.
Já Cecília Fraga, 42 anos, jornalista, é uma das duas divorciadas do grupo. No seu caso, "trata-se de começar tudo do zero", frisa, enquanto procura com o colo acalmar a birra de sono de um dos dois filhos. "Se foi uma decisão difícil? Claro que sim; demorei bastante a decidir, até rezei porque este passo é um grande risco, mas faço isto pelos meus filhos", acrescenta.
Localmente, a chegada dos brasileiros suscita as opiniões mais desencontradas. Diamantino Rosa, 65 anos, dono do quiosque Notícias Novas, perguntaquot;Há tanta gente que abala daqui por não ter trabalho, onde é que agora vão arranjar emprego para estas pessoas?". Mais pragmática, Maria dos Anjos, 38 anos, proprietário do pronto-a-vestir O Cisne, questiona os ordenados, mas dá um voto de confiança: "Se forem pessoas honestas e trabalhadoras, acho que fazem falta".
Num concelho em que um terço dos cerca de 4500 habitantes tem mais de 65 anos, esta tentativa de rejuvenescimento é vista como um derradeiro sopro de esperança. A presidente da câmara garante que está disposta a tudo, desde que os esforços não impliquem o endividamento da autarquia, "porque não temos dinheiro em excesso".
Daí que se apresse a esclarecer que o município se "limita a promover a fixação de pessoas, não o seu emprego". "Todas elas vêm trabalhar para o sector privado", garante, para justificar a impossibilidade de avançar com a data de chegada das próximas famílias. "Virão à medida que houver emprego e forem necessárias", sublinhou Irene Barata, sem esconder que "a câmara, ao servir de intermediária neste processo, garante o alojamento gratuito durante os primeiros seis meses".
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