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Correspondente em Londres
O triplo desastre que rebentou em Inglaterra envolvendo figuras-chave do Governo veio adensar as dúvidas sobre o futuro de Tony Blair à frente do Executivo trabalhista, que apresenta os índices de popularidade mais baixos dos últimos 20 anos. Das relações extraconjugais do seu braço-direito à humilhação da ministra da Saúde, sem esquecer a incompetência assumida pelo ministro do Interior, esta semana foi uma das mais difíceis de Blair em Downing Street.
A imprensa britânica de ontem fazia eco desta semana negra, com enfoque no romance extraconjugal de John Prescott, ministro adjunto do primeiro- -ministro que admitiu manter um caso com uma das suas secretárias, Tracey Temple, há dois anos. O escândalo surgiu na edição de quarta-feira do Daily Mirror, que publicava fotografias do casal. Ontem, os tablóides revelavam mais imagens e detalhes do affair de Prescott, figura importante na mobilização do Labour e no apaziguamento das hostilidades internas entre facções pró-Blair e pró-Brown (ministro das Finanças apontado como sucessor de Blair).
Mas se este caso pode ser ultrapassado com explicações de Downing Street dizendo que esse assunto privado "em nada afecta a sua capacidade [de Prescott] para desempenhar um papel vital no Governo", já é mais difícil justificar a permanência do ministro da Administração Interna. A oposição pediu a cabeça de Charles Clarke, depois de ter vindo a público que um erro administrativo permitiu a libertação de mais de mil presos estrangeiros das prisões inglesas (alguns cumpriam penas por homicídio, violação e pedofilia) sem serem extraditados. Blair segurou - para já - o ministro, argumentando que ele agiu de boa-fé.
Finalmente, para completar a trilogia do desastre, Patricia Hewitt, ministra da Saúde, foi humilhada duas vezes numa semana: a primeira, segunda-feira, num debate com o Unison, principal sindicato da função pública; a segunda, quarta-feira, na conferência anual da principal associação de enfermeiros do Reino Unido, onde o seu discurso foi boicotado com vaias e insultos. Isto porque o Governo anunciara um programa de reforma para eliminar as "redundâncias" do serviço nacional de saúde, que prevê redução de 8 mil postos de trabalho para combater a dívida do sector, estimada em 1,2 mil milhões de libras.
Há quem sugira que o actual estado de desgovernação, comparado ao período final do mandato de John Major, exige mais do que simples paliativos ou trocas de ministros. David Cameron, líder dos conservadores, dizia no Parlamento que, "apesar de a incompetência ser sistémica, a coisa só pára no homem que dirige o sistema. É como no futebol - não se despedem os jogadores, mas o treinador", em referência óbvia a Tony Blair.
Uma eventual hecatombe do Labour nas próximas eleições autárquicas de 4 de Maio pode bem ser o sinal para a tal "chicotada psicológica".
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