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José Mário Silva José Carlos Carvalho
Em Maio de 2001, três semanas após o lançamento do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, João Malaca Casteleiro, professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa e chefe da equipa que concretizou o projecto, foi inquirido, em entrevista ao Jornal de Letras, sobre a oportunidade de uma segunda edição da obra. "Talvez dentro de cinco anos possamos pensar nisso", respondeu.
Agora que passaram cinco anos, o presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa revelou ao DN o ponto em que se encontram os trabalhos para a nova versão do Dicionário. "O nosso objectivo consiste em ampliar e reestruturar este instrumento de trabalho linguístico que se mantém, no essencial, actualizado." Além de mudanças na organização dos verbetes, "no sentido de tornar mais prática a consulta", está previsto um aumento de 70 mil para 90 mil entradas lexicais e de dois para três volumes.
Acontece que a equipa de sete pessoas coordenada por Malaca Casteleiro - "um grupo experiente, que contribuiu para a versão portuguesa do Dicionário Houaiss" - está neste momento parada, por falta de condições financeiras. Paga durante algum tempo com os direitos de autor resultantes das vendas do actual Dicionário da Academia (cuja feitura, ao longo de 12 anos, foi em grande parte subsidiada pela Fundação Gulbenkian), a equipa poderia regressar à actividade se um dicionário escolar, a que entretanto se dedicou, fosse posto à venda. Todavia, como essa edição continua pendente, o impasse prolonga-se e Malaca Casteleiro garante que nestas condições só deve haver novidades, na melhor das hipóteses, em 2008.
Para Fernando Guedes, presidente do conselho de administração da Verbo (editora do Dicionário), essa data peca por tardia. "Francamente, espero que não sejam precisos dois anos", afirma. "Apesar de ser uma obra carismática e de referência, o Dicionário tem falhas, tem lacunas e precisa de ser urgentemente revisto e aumentado, de preferência já em 2007." Nestes cinco anos, a obra vendeu 35 mil exemplares (25 mil logo no primeiro ano) e os direitos foram sendo pagos à Academia das Ciências de Lisboa. "Foi com a instituição que assinámos um contrato e eventuais problemas na gestão dessas verbas ultrapassam-nos, como é evidente", sublinha Fernando Guedes.
Uma das polémicas que o Dicionário da Academia provocou, em 2001, relacionava-se com o "aportuguesamento" de muitas palavras estrangeiras. Será que entrariam no uso quotidiano dos profissionais da escrita? José Manuel Barroso, presidente da agência Lusa, considera que essas palavras só não foram integradas mais depressa na linguagem corrente, "como seria desejável", porque "somos demasiado conservadores" em matérias linguísticas. "Quanto mais aportuguesarmos, mais ganhamos. A lusofonia implica uma abertura ao uso de palavras novas", resume Barroso.
O que deve mudar?
Cinco anos após o lançamento, Malaca Casteleiro continua satisfeito com a "sua" obra. "Teve, parece- -me, um efeito importantíssimo na melhoria dos vários dicionários que foram surgindo desde 2001." Quanto às críticas ácidas que recebeu (ver caixa), "a maior parte vieram de pessoas que lêem os dicionários por fora, não compreendendo as subtilezas da sua lógica". Ainda assim, não faltam aspectos que é forçoso melhorar: "Há lacunas nos autores citados e nas listas de palavras, algumas gralhas ortográficas por corrigir e um tratamento dos estrangeirismos que precisa de ser mais homogéneo."
Fernando Venâncio, professor da Universidade de Amsterdão e crítico literário, foi um dos intelectuais que apontaram desde logo algumas inconsistências à obra. Hoje, não tem pejo em afirmar que "é, de todos os dicionários portugueses disponíveis, o mais cuidado e o mais informativo". De uma nova edição, porém, aguarda um maior cuidado com o vocabulário dos nossos dias, integrando termos como 'incontactável', 'pessoano', 'ficcional' ou 'recarregável'. "Um dicionário deve ser ousado, até porque um termo pode ser sempre retirado na edição seguinte."
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